NOTURNO

•dezembro 5, 2005 • 3 Comentários

– Vá agora para a cama, mocinha! – ordenou o pai. Era sempre a mesma cena, na hora de dormir. Gabriela enrolava, inventava tarefas de escola de última hora, leituras para o dia seguinte, assuntos sérios para tratar com os pais…qualquer coisa que a fizesse ficar pelo menos mais 10 minutos acordada. Ou melhor, em pé, porque acordada ela ficava mesmo estando na cama.

 

– Ah, paizinho…só mais 10 minutinhos… – choramingou, enquanto se encaminhava relutante para a cama.

 

O pai então a cobriu: primeiro o lençol, depois o edredom de ovelhinhas. Ajustou o termostato do aquecedor. Fazia muito frio aquela noite. O inverno estava sendo um dos mais rigorosos dos últimos anos. Não se lembrava de noites tão frias desde o ano em que Gabriela nascera.

 

– Dorme, Gabi. Amanhã você terá um dia longo – disse, dando-lhe um beijo na testa e acariciando os loiros cabelos da criança.

 

A porta do quarto de Gabriela ficou entreaberta, a luz do abajur acesa, iluminando de leve a noite da menina, que era suavemente embalada pelos noturnos de Chopin.

 

– Ela dormiu? – Gabriela ouviu a mãe perguntar.

 

O pai deu uma risada.

 

– Vai dormir. Mas aposto que ainda está acordada, ouvindo o que estamos falando – e levantando um pouco mais a voz: -, não é, Gabi?

 

A mãe também riu. Conheciam a filha que tinham. No quarto, Gabriela esforçava-se para desmentir os pais, dar a impressão de que estava no milionésimo sono. Chegava a ressonar alto, até mesmo roncar. Na sala, os pais só riam. Inocente…mal sabia ela que quanto mais se esforçava para parecer que dormia, mais falso soava.

 

– 1 carneirinho, 2 carneirinhos, 3 carneirinhos… – fechou os olhos e começou a contar – 4, 5 carneiri…6, 7, 8, 9…

 

Contar carneirinhos nunca funcionara com ela. Iniciavam pulando a cerquinha, bem devagar, um depois do outro. Aos poucos, no entanto, começavam a pular mais rápido, e então vários punham-se a saltar juntos. Não demorava muito, aparecia…

 

– Cuidado, o lobo!

 

…o lobo. E então era um tal de carneirinhos espalhados por todo o campo visual da menina, o lobo correndo atrás deles, uivando e chamando a matilha, que prontamente respondia. Ao final, o que deveria fazer Gabriela dormir, mantinha-a ainda mais desperta.

 

Enquanto carneirinhos e lobos corriam e brincavam de pega-pega na imaginação de Gabriela, seus pais se organizavam para também ir dormir. Em poucos minutos, a casa toda estava em silêncio, a não ser por Chopin, que dedilhava seus noturnos no quarto de Gabi.

 

A menina, sabendo que seus pais já haviam ido dormir, levantou-se e abriu a janela, sentando-se em uma poltrona em frente a ela, enrolada em seu edredon e abraçada em seu urso de pelúcia. Sentia-se muito bem à noite. Adorava ficar olhando as estrelas e a lua, ouvindo o silêncio que só a noite sabe produzir.

 

Riu sozinha. Enquanto olhava a rua da janela de seu quarto, percebeu que os carneirinhos e os lobos continuavam correndo em sua mente. Era, na verdade, como se estivessem ali mesmo em seu quarto. Será que seus pais conseguiam ouvir a algazarra causada pelos bichos? Sentiu frio, fechou a janela e foi sentar-se em sua cama.

 

– Shshshshshshshhhhh…vão acordar meus pais – sussurrou a menina, mas os bichos não pareciam se importar.

 

Um lobo saltou sobre um dos carneiros, e Gabriela achou que mordia o pescoço do bichinho felpudo por brincadeira, como filhotes brincando no chão da sala. Mas as presas do animal cravaram-se no carneirinho, e quando o lobo as puxou, trouxe consigo pele, pêlo e sangue. Muito sangue.

 

Gabriela continuou recostada em sua cama, abraçada ao urso de pelúcia. Ela observava com olhos atentos aquela brincadeira violenta, que logo teve a adesão dos outros lobos. Os cordeiros ganiam, gritavam; os lobos rosnavam alto, latiam e uivavam, enquanto destrinchavam a carne à sua frente. Gabi não emitia som algum. Chopin continuava a dedilhar as teclas do piano.

 

O lobo que havia começado a carnificina, e que parecia ser o líder da matilha, parou em frente ao último carneiro, que não havia sido tocado pelos dentes de nenhum dos cães ferozes. Sentou-se em sua frente, e o cordeiro fez o mesmo. Os demais animais continuavam a batalha ao fundo. Cordeiro e lobo então voltaram suas cabeças para o onde estava Gabriela. A garota largou seu urso ao lado do travesseiro e engatinhou na cama até onde estavam os bichos, sentando-se sobre as penas ao chegar bem perto.

 

Os olhos vermelhos do lobo brilhavam. Os olhos castanhos do carneiro também. Gabriela olhava alternadamente de um para o outro. Sem demonstrar sinal de medo, acariciou o pêlo do lobo. Depois afundou a mãozinha na lã macia do cordeiro.

 

– Desculpa – disse ela, acariciando o pêlo branco do carneiro, beijando-lhe o focinho.

 

Olhou fundo nos olhos do lobo, saiu da cama e mergulhou os pezinhos no rio de sangue que cobria o chão de seu quarto. Saiu pela porta entreaberta e foi até a cozinha, deixando marcas vermelhas pelo assoalho. Abriu a gaveta da pia e de lá tirou uma faca de churrasco afiada, que carregou pela casa toda até o quarto dos pais.

 

O lobo atacou o último dos cordeiros, arrancando-lhe nacos de carne ensangüentada. Dirigiu-se então para o quarto do casal e sentou-se à porta, observando Gabriela. A menina, com total domínio de seus movimentos, dotada de uma força descomunal e destreza com a lâmina, esfaqueou dezenas de vezes o pai, depois a mãe. Quem depois viu a cena, jura que aquele estrago jamais poderia ter sido provocado por uma criança de seis anos sozinha.

 
 

Gabriela largou a faca aos pés da cama, beijou a testa do pai e acariciou-lhe os cabelos, depois beijou o rosto da mãe, passando-lhe a mão pela face. Desceu da cama e caminhou a passos firmes, sem olhar para trás, para onde estava o lobo, lhe esperando. Foram juntos até seu quarto. Gabi abriu a janela de onde sempre observava a noite, e por ali saíram, enquanto Chopin continuava a tocar…

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ENQUANTO ROLAM OS CRÉDITOS…

•outubro 22, 2005 • 3 Comentários
A casa está imunda. Roupas e botas largadas por todo canto, garrafas e copos e pratos espalhados, com restos de bebida e comida do início da semana. Sobre a escrivaninha, livros e papéis jogados em todas as direções; na estante, outros livros quase despencando, caídos uns sobre os outros como num jogo de dominó. Até mesmo sobre a minha cama, de onde digito agora, há objetos largados, que eu sei que não vou arrumar tão cedo. Na secretária eletrônica vejo que a luz vermelha está piscando, o que significa que há recado. Ouvi mesmo o telefone tocar algumas vezes essa semana, mas não tive coragem de atender.
 
A cozinha é um caso à parte. Sobre o fogão, uma panela de ferro que já está sendo usada pela terceira ou quarta vez sem ser lavada. Atualmente, tem um resto de molho da macarronada de hoje ao meio-dia. Eu sei que comida fora da geladeira estraga, minha mãe sempre fez questão de repetir isso milhões de vezes quando eu estava na faculdade e ela e meu pai iam me visitar. Mas não vou guardar na geladeira, nem vou jogar fora. Se estiver com fome amanhã, coisa de que não tenho muita certeza, como aquele molho mesmo, requentado, com o pão adormecido que está em um saco de papel jogado sobre a pia.
 
As formigas é que estão felizes com a minha depressão. O meu desleixo comigo e com minha casa acabou criando o ambiente perfeito para que elas procurassem alimento e se instalassem confortavelmente. Hoje vi algumas caminhando em carreira sobre a imunda pia do banheiro. Tenho uma lata de inseticida perto do lixo, embaixo da pia, mas porque mataria os pobres insetos quando sou eu a querer morrer?
 
E pensando nisso, nem sei se quero de verdade. Talvez um sono constante de um ou dois anos já me resolvesse o problema. Hibernar como os ursos, ou dormir por cem anos, mas continuar com “carinha e corpinho de 16”, como a Princesa Aurora. Eu sinto que ainda tenho muito o que realizar, por isso não posso me dar ao luxo de cometer suicídio. É bonito morrer jovem quando se está no auge da carreira, quando o amam, e quando você sabe que sua ausência deixará corações inconsoláveis por muitos anos, dependendo do suicida, por muitas décadas. Mas eu? Quem se lembraria de mim a não ser minha família e alguns poucos amigos? Que obra teria deixado? E os livros que ainda não publiquei, e os filmes que ainda não dirigi?
 
Aliás, sabe o que me faz cortar só de leve o pulso com essa adaga que tenho aos pés da cama, sem que chegue à veia? Os filmes aos quais espero ainda assistir. Já imaginou se eu morresse antes de estrear por aqui “Corpse Bride”? Ainda bem que adiei o preparado de venenos e ervas, aquela semana. Eu, uma cinéfila doente, teria perdido essa estréia…logo eu? Ainda há muitos filmes a assistir.
 
Por isso acredito que o sono prolongado seria a melhor opção. Coma induzido. Seria como morrer por algum tempo, não seria? Dizem que o sono é uma “prévia” que temos todas as noites de como é morrer. Então o despertar seria como “reencarnar”. E o coma seria uma espécie do que os cristãos chamam de Purgatório. Morrer, sem direito a reencarnar, pelo menos até estar preparado.
 
Sinto meu coração bater e meu cérebro funcionar, mas não entendo o que eles dizem. A depressão nos torna mais burros também. Sei disso porque não consigo escrever um simples artigo de 10 páginas para o Mestrado. E esqueço as palavras de uso freqüente, não aquelas que de vez em quando buscamos no dicionário quando queremos impressionar alguém.
 
Talvez nesse único momento eu agradeça por não ser um vampiro ou outro ser imortal. Alguém já imaginou como seria viver a eternidade lamentando-se em depressão e desejando a Morte, sem conseguir alcançá-la? Eu, pelo menos, ainda tenho essa escolha. No momento eu a convido a sentar-se, se conseguir encontrar lugar nesse quarto virado num acampamento de enchente, e a beber Coca-Cola comigo. Quem sabe ela também se anime e me acompanhe ao Cinema amanhã. Se quando ambas já estivermos cansadas dessa farsa,  decidirmos, de comum acordo, que é chegada a hora, me entregarei de bom grado aos braços dela. Mas depois de uma sessão de Cinema, enquanto rolam os créditos.

E DE REPENTE…

•setembro 21, 2005 • 1 Comentário

MANHÃ – QUARTO/BANHEIRO DE CLARA – INT.

Dia de semana qualquer. CLARA acorda, girando as pernas, juntas, para fora da cama e lembra que precisa respirar. Inspira o ar fazendo força para que entre em seus pulmões e faça a máquina funcionar. Calça as pantufas de tênis gigantes (estilo O Fantástico Mundo de Bob) e segue, arrastando os pés, os olhos ainda fechados de sono, até o banheiro. Abre a torneira de água fria. Esquece a de água quente. Com as mãos em concha, recolhe um pouco de água e joga no rosto.

 

            CLARA (Sente a água fria no rosto.)

            – M****!

 

MANHÃ – BANHEIRO DE CLARA – INT.

Clara olha-se no espelho. Toca o rosto. Seu olhar é de quem analisa algo profundamente.

 

– Clara! – ouviu alguém gritar, e olhou na direção da escada atrás de si.

 

MANHÃ –BANHEIRO/COZINHA DE CLARA – INT. 

Enquanto continuava a olhar a escada, na direção da voz, Clara pensava que precisa parar de pensar em trabalho. Na cozinha, a empregada colocava o bule de café, na mesa já posta.

 

– Clara, o café está pronto! – ao menos aquele chamado – devia ser o que…o segundo, terceiro…? – a tirara daquele devaneio, do diálogo com o espelho. Todas as manhãs era a mesma coisa, e isso era algo que também precisava eliminar de seu cotidiano.

 

Gritou qualquer coisa como um “já vou” ou “tô indo”, terminou sua higiene matinal e vestiu jeans, camisa branca e botas. Passou rápido pela cozinha e bebeu um único gole do café anunciado, mas não tinha tempo para uma refeição completa. Eram sete horas da manhã e Gilberto já lhe havia ligado duas vezes no celular cobrando o roteiro (que ela, por sinal, havia passado a madrugada inteira escrevendo).

 

MANHÃ – SET DE FILMAGEM – EXT.

Correria. Eletricistas carregando cabos. JOHNNY DEPP e RITA HAYWORTH ensaiam no meio do estúdio. O produtor, IRVING G. THALBERG, está sentado com o diretor, GILBERTO FERRAZ, e discutem o quanto o atraso na entrega do roteiro lhes custará. Clara entra.

 

            CLARA

            – Bom d…

            IRVING G. THALBERG

– Espero que você tenha os milhões para cobrir nosso rombo, dona Clara…

 

Nada como um “dona” para tirar qualquer mulher de qualquer devaneio, seja ele bom ou não. No caso de Clara, era hilário. Teve que rir do absurdo que sua mente criara: reunir em um único set Johnny Depp, Rita Hayworth, Irving G. Thalberg e seu diretor, Gil Ferraz? E entregar um roteiro quando as filmagens já estavam acontecendo?

 

– Clara, minha velha amiga! Justamente quem eu gostaria de encontrar agora!

 

– Bom dia, Gil – disse-lhe Clara, ainda visivelmente incomodada com o “velha” amiga gritado aos quatro ventos pelo diretor. – Aqui está o roteiro. Estarei esperando seu OK ou qualquer alteração que necessite – acrescentou, girando nos calcanhares e fazendo o caminho de volta à casa.

 

NOITE – CASTELO DA MADRASTA MÁ – INT.

A madrasta da Branca de Neve olha-se vaidosamente no Espelho.

 

            MADRASTA

            – Espelho, espelho meu…

 

A imagem refletida foi a de Clara. Assustou-se com a desconhecida que surgia em sua frente, na intimidade de sua casa. Para onde tinham ido todas aquelas manhãs, todas aquelas conversas com o “espelho, espelho seu”? Tocou seu rosto, tentando reconhecer cada traço e cada linha. Não tinha rugas, mas sua pele estava flácida. Não havia mais a vivacidade de seus 19 anos nos cabelos. Os olhos perderam o brilho. Riu um riso triste. Foi preciso um “dona” e um “velha amiga” para que percebesse que o tempo havia passado.

 

Tentou imaginar, enquanto analisava a si mesma naquela moldura, como aquilo havia acontecido. Em cinema, nos roteiros, escreve-se: “passaram dois anos”, “quinze anos mais tarde…”, somente para que o diretor e atores se localizem quanto ao tempo transcorrido e…voilà!, temos a idade da personagem.

 

Na vida real o tempo passa tão devagar – e tão rápido – que mal se nota…

 

Os olhos de Clara continuavam vidrados na imagem, como se buscasse uma resposta, as mãos apoiadas na pia. Fosse em algum filme, a personagem descobriria que os prazeres da vida não se resumem à juventude; seria visitada por um leprechaun (ou algo que o valha) que lhe entregaria o néctar da juventude; morreria, antes que sua carreira caísse em declínio e ela fosse esquecida. Mas não era um filme. Clara estava em pé em seu banheiro, as mãos apoiadas na pia, os olhos fixos no reflexo envelhecido de que se dera conta somente há alguns minutos…e nada de mais aconteceria.

 

Talvez Clara devesse aceitar o envelhecimento como parte da vida, o que realmente é; talvez mais tarde entre em profunda depressão. Naquele momento, no entanto, ela nada pensou, nada fez.

 

TARDE – BANHEIRO DE CLARA – INT.

Clara está parada em frente ao espelho do banheiro, as duas mãos apoiadas na pia. O reflexo vai desaparecendo com a neblina do chuveiro, que embaça o espelho.

 

FIM.

STARRY, STARRY NIGHT (Scarecrow)

•setembro 19, 2005 • 1 Comentário

(Olho pela janela. A cidade já parece tão distante e irreal)

Starry, starry night
Paint your palette blue and grey….

Linda canção, não Vincent?
Não tão doce quanto os demônios quadricromáticos que zuniam por orelhas
fendidas.
Fendidas como minha alma, que derrama-se frente a tua inspiração, como o consolo
que antecede a partida.

A partida carregada com sua loucura, sua loucura trazida pelas mãos de um anjo
de cabelos em fogo, que me fez desejar imediata morte, e que não atendeu meu
pedido…

… Look out on a summer’s day
With eyes that know the darkness in my soul…

(Em frente à minha janela, um cipreste arde em direção ao céu. Chamas negras,
tochas d’alma…)

Queria o encontro ao final da procura, uma rápida troca de olhares antes dos
corvos se levantarem em vôo fúnebre por entre os campos de trigo, o sentimento
que enternece os últimos passos, como se nunca houvesse o peso da meia-luz, que
adorna meu espírito.

(..sombras que prenunciam a eternidade…sombras em palha a espantar corvos
famintos…que perversamente me observa, que me intimida e oprime…que me
mantém refém da densa loucura)

… Shadows on the hills
Sketch the trees and daffodils
Catch the breeze and the winter chills
In colours on the snowy linen land…

Existem sombras também entre os vales de meu corpo, cores desordenadas que
colidem e gritam freneticamente por um alento. Sim, eu me vejo em sua dor, sinto
cada pincelada a cortar-me como um exército de navalhas. Por que não posso fazer
de meu inferno algo tão lúdico?

(Minha resposta vem em forma de uma única lufada de insano vento, que faz tremer
os vidros, arrepiar a pele e em redemoinho faz dançar as estrelas no palco de
turbulenta imensidão…imensidão fria como a pele daquela que me roubou a réstia
final de humanidade)

… Now I understand
What you tried to say to me
And how you suffered for your sanity
And how you tried to set them free
They would not listen
They did not know how
Perhaps they’ll listen now…

Tardiamente vejo o oceano celeste em fúria. Gritava você por socoro como meu
corpo o faz agora? Sentia você os punhos da solidão como eu sinto agora? Se por
um único instante fomos iguais, então estou resignado, pois gargalharei na saída
para ouvidos surdos!

… Starry, starry night
Flaming flowers that brightly blaze
Swirling clouds and violet haze
Reflect in Vincent’s eyes of china blue
Colours changing hue
Morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain
Are soothed beneath the artists’ loving hand…

Queima-me a força dessa forma, convida-me a rodopiar em fúria para órbitas
distantes, eternizo-me, e etéreo volto para ser exorcizado em agressivos
pincéis; desejo dilacerar tal como fui, enegrecer-me no nada, expandir-me em
segredo e, em segredo, como tu, coabitar nos jovens corações abertos ao
desepero.

…For they could not love you
But still your love was true
And when no hope was left inside
On that starry, starry night
You took your life as lovers often do
But I could have told you Vincent
This world was never meant for one as beautiful as you…

E quem pode amar?
Quem responde?
Vejo uma avalanche pictórica, um céu a desabar sobre cabeças inócuas entretidas
com romances holywoodianos, suspiros vazios de emoção imagética.

… Like the strangers that you’ve met
The ragged men in ragged clothes
The silver thorn of bloody rose
Lie crushed and broken on the virgin snow…

Esfarrapadas estarão minhas roupas, meus vícios, minha fé, esfarrapado estou eu,
um indigente dos nobres sentimentos, sequioso por paz em lugares distantes.
Alguém me amará como Theo o amou?

Alguém amará como eu a amei?

Alguém amará como os seres que corriam em meio aos corvos?

… Now I think I know
What you tried to say to me
And how you suffered for your sanity
And how you tried to set them free
They would not listen
They’re not listening still
Perhaps they never will…

Sofremos juntos, nossas almas se tocam, que permaneçam cegos os caminhantes
dessa esfera, espere-me amigo, de braços abertos e telas prontas, esse corpo
nada mais significa, e com ele hão de ficar as horas em vão na busca de um
sentido, um mistério de amor…

(Ouço uma estrela sussurrar meu nome, a lua a me chamar. E num crescendo de sons
e tons, ouço-os todos gritar em uníssinos solos de estridente guitarra e
raivosas pinceladas sobre a tela, nas batidas de um coração descompassado: “é
chegada a hora!”)

E eu a agradeço por uma fração de segundo, por ter me trazido você vincent,
junto a todas as dores…

Caído por fim, olho-me com escárnio e ternura.
Acabou!
Hoje eu tomarei meu lugar na noite estrelada

Starry, starry night

TAKE ME (c/ Scarecrow)

•agosto 31, 2005 • 7 Comentários

O dia quente e abafado de sábado finalmente terminava. Uma brisa começava a soprar, trazendo a promessa de uma noite de temperaturas mais amenas. Uma noite que se anunciava negra e estrelada.

 

O tédio já se fazia sentir naquele espírito atormentado, e só não era pior pela expectativa do prazer que supostamente o aguardava sob o manto noturno.

 

Sentindo excitação e sensualidade, dirigiu-se ao guarda-roupas, à procura do traje adequado à ocasião, algo que lhe conferisse a familiaridade inexistente com este mundo, no chamado “horário comercial”. Maquiagem branca, olheiras cuidadosamente delineadas, um lindo e antigo lenço bordado e um ank adquirido às pressas numa loja qualquer compunham o visual de mais um postulante ao universo underground.

 

Um belo jantar e a última faixa de um desconhecido CD de vocais graves. A personagem estava pronta. O palco estava à sua espera.

 

Intermináveis minutos dentro de um ônibus renderam-lhe olhares inamistosos de skinheads, piadas infames dos manos, e a necessidade de muita paciência. À medida em que o ônibus avançava, via pela janela que o número de adolescentes vestidos de forma semelhante à sua aumentava… estava, enfim, chegando!

 

Alguns minutos gastos na fila, e a escuridão do ambiente já podia ser avistada. Imediatamente lançavam-se aos seus olhos pessoas que dançavam, bebiam e tocavam-se lascivamente. Um mal disfarçado sorriso veio-lhe ao rosto. “A noite promete”.

 

Música, dança…drogas, bebedeira…diversão, luxúria e transe dividiam o mesmo espaço.

 

Com a consciência alterada por substâncias químicas e adrenalina, entregou-se ao ambiente. Foi então que seu olhar cruzou com o de uma figura que parecia não pertencer ao local. Ela não dançava, não conversava, não sorria. Refugiava-se num canto escuro, apenas observando.

 

You’ll never understand, the meaning in the end…”

 

A música chamou sua atenção. Havia esperado a noite toda por ela. Num sinal de aprovação, olhou para o DJ, que parecia controlar a multidão ao seu bel prazer, executando coreografias que eram imediatamente imitadas pelos demais. Achou curioso e exótico o DJ estar naquela estranha roupa de espantalho, mas em festas como aquela, nada era motivo de surpresa.

 

A música causava-lhe incontroláveis efeitos. Voltou a olhar aquela ruiva inamistosa, e avançou serpenteando em sua direção.

 

Your purity and rage, your passion and your hate, you promised more than bliss, with your god and with your kiss”

 

Aproveitando-se da própria letra da música, soprou-lhe um beijo. A fascinante ruiva lhe assentiu com um sorriso. Sentindo-se mais confiante, aproximou-se, cantando os versos da canção, como a lhe fazer uma ode.

 

“…I’m on my knees, I beg your mercy, my soul is my loss, I’m well hung from your cross…”

 

Tocou sua mão, convidando-a a entregar seu corpo à música. Dançava e movia as mãos em gestos sensuais, chamando-a à pista,  mas a moça permanecia interte; apenas lhe sorria e permitia que segurasse sua mão. Postando-se mais perto, aproximou seu rosto ao dela.

 

“…Take me, take me in your arms my love and rape me, don’t hide behind your rage I know you love me, and always will…”, cantava, como a dirigir-lhe uma súplica.

 

Atendendo aos seus anseios ela o abraçou, puxando-o para junto de si.  Os corpos se entrelaçaram, enquanto as pessoas na pista continuavam mergulhadas em transe. Muitos eram os universos que conviviam lado a lado, mas nenhum deles parecia perceber o outro.

 

“…You’re my possession, of that my love there really is no question, don’t hide behind your  rage, I know you love me, and always will…”

 

Ainda abraçados e alheios ao êxtase reinante na pista, ela arranhou-lhe as costas fortemente, arrancando-lhe expressões de dor dionisíaca…

 

“…Take me…”

 

Carícias caminhando paralelas à violência.

 

“…Rape me…”

 

Percorria-lhe o corpo o arrepio causado pelo atrito de unhas…e dentes!

 

“…Love me…”

 

Nem todos os desejos podem ser satisfeitos.

 

“Take me…”

 

O público continuava em hipnose coletiva, desejando desejar, e ninguém se importou quando um corpo caiu abafadamente ao chão, a garganta dilacerada. Em tal ambiente, performances como aquela já eram esperadas. Nada mudou: todos dançavam, o DJ continuava no controle…

 

…e no canto escuro, a bela ruiva delicadamente limpava os lábios num lenço bordado. Um troféu a mais na sua extensa galeria de caça!

PENSAMENTOS DE SCARECROW (Scarecrow)

•agosto 21, 2005 • 2 Comentários
Do interior desse espantalho de trapos e palha, observo calado o sofrer daquela que tanto me importa. É curioso como nessas horas me pego a questionar minha condição, a condição dela e de todos os outros seres do universo não-humano.
 
Ela? Ah, sim…devo explicar: ela é minha doce Leanan Sidhe, alguém que somente por invadir meus pensamentos provoca-me lágrimas. Por isso seu sofrer tanto me afeta, vejo-a perdida em uma bruma de solidão, solidão em que ela não permite que eu entre e que a abrace. Ela sofre, e nada posso fazer, não dentro desse corpo.
 
Como vim parar aqui? Ah, eu ainda me lembro, sim…eu me lembro! Eu venho de muito tempo, nascido no momento da criação e, assim como meu ex-amigo e atualmente maior rival, Lúcifer, eu era aquilo que os cristãos humanos chamam de anjo. Na época eu tinha um nome, eu era Zaerhaerhael, já não me recordo se um trono ou querubim, faz muito tempo.
 
Eu estava lá no momento da rebelião, lembro-me que me posicionei ao lado do exército de Gabriel. Sim, sempre apreciei a luta. Com muito prazer eu vinha a este miserável plano para ceifar vidas. Muito daquilo que foi atribuído ao ‘veneno de deus’, Samael, foi realizado por mim. Eu agia nas sombras, mas foi com dor no coração que tive que lutar contra meus iguais. A ‘guerra no Céu’ foi um verdadeiro massacre…aqueles que pensam que anjos não podem morrer, ficariam aterrorizados com a crueldade usada por ambos os lados naquela batalha.
 
A guerra acabou e o exército de Lúcifer foi vencido. Foram todos banidos e, com o espaço vazio, Gabriel, Auriel, eu e muitos outros passamos a ocupar as altas hierarquias celestes. Quase houve outra revolta quando Deus escolheu Metatron para ser o novo ‘chefe’, mas isso foi rapidamente abafado quando houve farta distribuição de benesses entre a alta cúpula angélica.
 
O tempo passou, as coisas começaram a ficar enfadonhas. Um dia, deixei meus aposentos e comuniquei a Metatron que deixaria a Cidade Prateada, desejava vagar pelo universo e ter novas experiências. Gabriel fez o que pôde para que eu permanecesse, mas eu estava ávido por novos horizontes e parti. Infelizmente minha partida não foi bem recebida e, embora eu fosse livre para sair, jamais poderia voltar à Cidade Prateada. Meu vínculo estava terminado e, fosse onde eu fosse, estava sozinho.
 
Nunca fui de uma memória privilegiada, mas passei muito tempo vagando entre os planos e aprendendo, ensinando; tive muitas amantes e conheci o amor carnal. Como é de minha natureza, um dia isso tudo me cansou e eu parti para um novo local, que seria meu maior desafio…o Inferno! Não tive dificuldades em entrar – jamais alguém encontrará resistência para entrar no Inferno -, já para sair, não seria bem assim!
 
Lúcifer, claro, não ficou alheio à minha chegada, e me enviou um comitê de recepção. O que posso dizer é que o comitê retornou a ele aos poucos, um pedaço de cada vez.
 
Na Cidade Prateada, aprendemos a utilizar a energia do inimigo abatido, e uma vez que eu era um de seus guerreiros mais graduados, não tiver dificuldade em me fortalecer de meus inimigos. Em pouco tempo, eu tinha dentro do Inferno meu próprio séquito de demônios. Fui desafiado algumas vezes, e venci todas: Choronzon, Belial, Andrameleck, foram todos vencidos, só os poupei porque as regras de nossos combates eram claras – embora não pareça, existem regras e ética entre os demônios.
 
Meu poder no Inferno cresceu. Lúcifer, que até então não havia se aproximado, começou a ser vitimado por boatos que davam conta de que não resistiria a mim num combate, coisa que nunca se soube, pois tal combate não ocorreu. Ao invés disso, fui oficialmente aceito como um grande duque do Inferno, com meu próprio exército de demônios.
 
Eu não me importava com as torturas e não me intrometia nas maledicências contra a Cidade Prateada. Alguns desconfiavam que eu era um ‘espião’; eu apenas ria de tanta infantilidade. Meus objetivos eram muito pessoais, eu apenas queria fazer o que tinha vontade, e nem mesmo Lúcifer me impediria.
 
Mas eu estava satisfeito.
 
Um dia, o alto círculo infernal estava em polvorosa, algo havia acontecido. Depois de algumas perguntas, descobri que um alto servidor do Inferno na terra havia sido brutalmente assassinado por uma vampira. Eu sempre tive certa simpatia pelos vampiros, tive até mesmo um caso fugaz com Lilith. Muitas das técnicas dos vampiros foram ensinadas por anjos.
 
Dirigi-me ao centro da confusão e pude ver uma mulher, estava acorrentada. Keemahiah, uma mensageira, a arrastava enquanto os demônios menores lhe gritavam impropérios. Soube que, durante uma evocação demoníaca, a tal vampira saltou sobre o mago e bebeu seu sangue. A ira dos demônios evocados foi enorme, ela foi imediatamente arrastada ao Inferno para a condenação.
 
Lúcifer estava furioso, aparentemente aquele mago era uma peça importante no seu tabuleiro. Há algum tempo o Inferno vinha recrutando soldados valiosos, e não aqueles idiotas que caem facilmente na estúpida conversa de Choronzon. Eu, particularmente, sempre achei os humanos uma massa imbecilizada, não entendia porque Deus os amava tanto – talvez sentisse pena da pior de todas as suas criações – e não me importava sobremaneira com os insucessos do Inferno na terra; cuidava apenas de mim.
 
Enquanto Lúcifer e seus asseclas divertiam-se com as possibilidades de tortura, a curiosidade tomou conta de mim e tive que ver de perto quem era a tal mulher. Abandonei o círculo e fui até sua prisão. Ela estava sentada em um canto, seus cabelos eram longos, estava nua. Involuntariamente fiz um barulho; ela levantou a cabeça e olhou-me. Então, nossos olhos fixaram-se um no outro.
 
A única palavra que posso usar para descrever é…FASCINAÇÃO…aquele olhar me prendeu completamente. Passei horas ali, num diálogo mudo. Senti algo diferente e inusitado, e sabia que ela sentia o mesmo.
 
Deixei-a por um instante e voltei ao círculo, eles ainda estavam lá, muitos já completamente bêbados. Em voz alta comuniquei a todos que aquela vampira não seria tocada, e que estava sob minha responsabilidade.
 
Lúcifer olhou-me colérico, Azazel investiu contra mim, e foi rapidamente repelido, jamais fora bom guerreiro.
 
Brandi minha espada e disse que lutaria com todos, e que o faria ali mesmo.
 
Embora Lúcifer fosse o grande rei do Inferno, ele já conhecia minhas habilidades no combate – seu corpo ainda guardava algumas marcas da guerra no Céu – e ele não se arriscaria a perder a autoridade, sendo derrotado numa pendenga física. Mas como comandante habilidoso, sua sentença foi rápida: eu deveria deixar com ela o Inferno, estava banido.
 
Lúcifer ainda me garantiu que, enquanto eu estivesse ao seu lado, ela estaria segura; mas se por um único minuto eu me ausentasse, ou ainda se perecesse, o Inferno a recapturaria, e ela jamais sairia de lá.
 
Segurei nas mãos de Leanan e juntos deixamos o Inferno, indo para o único local onde ela poderia viver: o mundo dos humanos. Nos primeiros anos gozamos de um amor que jamais imaginei existir, mas minha constituição energética, infelizmente, cobrou seu preço.
 
Poucos sabem, mas tanto na Cidade Prateada quanto no Inferno, existe uma certa energia que alimenta constantemente os seus; não importa em que lugar do universo eles estejam, essa energia sempre está a preenchê-los.
 
No entanto, eu já não fazia mais parte nem de um, nem de outro.
 
Então, para nossa infelicidade, minha constituição física foi-se perdendo. Como uma fotografia que vai se apagando, o meu corpo perdeu-se. Graças ao seu conhecimento de magia, no entanto, Leanan colocou minha essência dentro de um velho espantalho.
 
Ainda posso me materializar em nível psíquico, dentro da mente das pessoas e, ali, posso me alimentar delas. Sim, grosso modo eu também me tornei um vampiro, pois sem a fonte do Inferno e do Céu, preciso da força psíquica dos humanos para não morrer. Mesmo nessas condições, Leanan ainda está segura, pois nenhum demônio, egrégora ou outra força externa ao mundo humano pode se aproximar. Eu poderia restituir minhas forças, e tanto a Cidade Prateada, quanto o Inferno, desejam minha morte.
 
Com isso, acabamos por criar uma interdependência: eu ajudo Leanan a se alimentar, e ela faz o mesmo por mim. Sem ela, eu já estaria morto. E sem mim, o Inferno virá buscá-la.
 
Essa é minha história.
 
E hoje, eu a vejo sofrer, vejo-a desejar ter nascido como todos os outros, vejo-a imersa na dor da solidão, e isso me dilacera. Mesmo em depressão, ela ainda me parece tão bela, tão fascinante…como eu gostaria de poder tocá-la.
 
Mas hoje ela não permite minha aproximação. Só posso contemplá-la, tentar entender seu rosto bonito, e rezar.
 
Rezar.
 
Rezar para que o Inferno, ou o Céu, jamais a tirem de mim.

INSTRUMENTO DE DEUS (Scarecrow)

•agosto 18, 2005 • Deixe um comentário
Miguel de Terranegra caminhava pelas ruas de Jerusalém. No caos do mercado da cidade baixa observava com desdém os judeus, e com profundo ódio os seus inimigos sarracenos. O ano era 1815 e as cruzadas atingiam seu momento mais sangrento. Cristãos e islâmicos engalfinhavam-se por um mínimo de espaço possível na Terra Santa, por isso, a mão caminhava sempre repousada no cabo de sua espada templária. A cidade baixa ainda mantinha sua miscelânea cultural, terreno fértil para ataques islâmicos a um representante da cruz que orgulhosamente ostentava em seu peito. A fama de terríveis guerreiros, alcançada pelos Cavaleiros Templários, lhe garantira até aquele momento uma certa invulnerabilidade.
 
Desejava voltar logo para a cidade alta, onde só viviam os cristãos, onde não precisaria suportar tanta blasfêmia e não sentiria com tanta intensidade o ódio que lhe corroia as entranhas.
 
Miguel sentia-se como um penitente tendo que caminhar pelo inferno; via a todos como malditos demônios carregados de iniqüidades, que sua espada desejava ceifar, prestar um serviço à causa cristã destruindo aqueles desgraçados – que a seu ver já estavam mortos mesmo – pela adoração a falsos deuses.
 
O cavaleiro espanhol deteu-se por um momento frente a uma barraca repleta de tâmaras. Tentava distrair seus pensamentos do ódio que lhe consumia. Sua mão deixou por um instante o cabo da espada para ocupar-se de um instrumento que lhe parecia mais poderoso, a Bíblia, carregada num alforje de couro belíssimo, que só não era furtado por estar em posse de um templário.
 
Entrando em um beco menos movimentado, ajoelhou-se e rezou fervorosamente. Iniciando então a leitura da Bíblia, folheando-a a esmo, acabou por deparar-se com o livro do Gênese:
 
"…À tardinha, chegaram dois anjos a Sodoma, quando o pai Lot estava justamente sentado à porta da cidade. Prontamente Lot convidou-os a pernoitar em sua casa… No raiar do dia, os anjos apressaram Lot, dizendo-lhe: ‘Anda, toma depressa tua mulher e tuas duas filhas, não suceda que também tu pereças na ruína da cidade’. Como ele, porém, ainda hesitasse, os homens insistiram, porque o Senhor queria poupá-lo; conduziram-no para fora da cidade e advertiram: ‘Salva tua vida, não olhes para trás e não pares nos arredores! Esconde-te nas montanhas, para que não sejas destruido!… Rápido, salva-te, vai para lá, pois nada posso fazer antes de tu lá chegares.’
 
Pela mão do destino este trecho lhe saltou aos olhos, prendendo sua atenção, aumentando seu ódio, um ódio que não podia mais compreender, que se tornava descontrolado. Sentia-se guiado, sentia uma voz invisível a lhe gritar maledicências e incitar-lhe à matança, sua visão turvava-se e enegrecia; o descontrole era total!
 
Miguel não pôde mais suportar, aquela voz o incitava mais, ele desejava mais do que tudo matar. Sacou sua espada para golpear um inimigo invisível, um grito insano deixou sua garganta, quando num lapso de lucidez ele vislumbrou a figura assustada de um homem que gritava por piedade.
 
–Quem é você? Perguntou Miguel.
 
–Sou Lot meu senhor, esqueceste que estás em companhia de teu igual a cear em minha casa? Esqueceste que tu e teu igual me ordenastes a fugir da destruição com os meus?
 
Ouvindo um eco incômodo dentro de sua caixa craniana, Miguel ordenou que Lot rapidamente se retirasse.
 
Depois de alguns minutos um novo lapso de lucidez lhe ocorrera…Lot? A lucidez durou apenas alguns segundos, e novamente aquela voz lhe enchia os ouvidos, aquela voz que lhe trazia tanto ódio. Tentando dominar seus instintos saiu às ruas. Do lado de fora viu que muitos o esperavam e lhe gritavam obscenidades, faziam-lhe gestos grotescos e ameaças.
 
–Sodomizaremos a ambos e beberemos o seu sangue!
 
Miguel tentava caminhar para longe daquela turba furiosa, a espada segura por suas mãos tensas que ansiava por destruir, a voz que ainda lhe falava de sacrifícios e sangue santo. Tentava desviar seus pensamentos para a arquitetura de sua amada Jerusalém…Mas espere, que parte tão desconhecida de Jerusalém era aquela? Seria mais um mistério da cidade baixa e sua impiedade?
 
Miguel sentia-se confuso, tomado por uma dor que não feria, por uma onda de fúria que lhe gritava por carnificina. O mundo girava. A garganta seca, a mão sobre a espada, a maldita voz.
 
Foi tal caleidoscópio animal que se apossava de seu ser, que cambaleando Miguel gritou a seu senhor que lhe livrasse daquilo. Sentia-se vitimado por uma armadilha demoníaca, a multidão ao redor ria com faces bizarras e olhares gulosos. Sua mão procurou a espada ao mesmo tempo em que a massa avançava e lhe tocava com violenta luxúria. Sentia sua túnica templária ser rasgada, o desespero final tomou conta de seu ser.
 
Seu demônio acordara!
 
Seu braço musculoso girava a espada a esmo, Miguel pouco via; o mundo tornou-se uma tela distorcida de cabeças que chovia a sua frente em caretas fúnebres e sangue. Ouvia gritos de dor, a voz, o caos, a massa negra que lhe cobria como um cobertor mortífero e contra a qual lutava com todas as suas forças. Rezava em voz alta e sua oração perdia-se em meio aos gritos, bocas, e mãos que lhe tocavam repulsivamente. Sua espada cortava sem piedade e carne fendida, ossos quebrados e gritos, muitos gritos compunham o quadro macabro ao seu redor. A voz lhe falava, lhe dizia que era hora. Não suportando mais, ele a ouviu, e sua sentença lhe pedia a hora do sacrifício final.
 
Sem entender o que aquilo significava ou como fazê-lo, Miguel apenas liberou a última amarra que o prendia.
 
O mundo de sangue e gritos transformou-se em luz, a luz que sempre buscou em suas orações e que agora lhe parecia um instrumento vindo do mais profundo inferno, a luz cegante acompanhada de um rugido ensurdecedor. Sentia o corpo a se desintegrar e reintegrar-se seguidamente, perdia-se de si mesmo, e então voltava, explodia tantas vezes que estava à beira da loucura, os gritos haviam desaparecido.
 
A maledicência havia desaparecido.
 
Os toques lascivos e violentos haviam desaparecido.
 
Somente luz.
 
Somente o rugido ensurdecedor.
 
Somente a voz.
 
E a inconsciência.
 
Despertou, não se sabe quanto tempo depois: estava sujo, com muitos hematomas, sua cruz no peito e sua espada permaneciam intactas. Ao redor, destruição como nunca presenciara.
 
Caminhou por aquela cidade destruída, sabia agora que não estava em Jerusalém, mas ignorava que lugar era aquele.
 
O impulso o levou na direção do deserto, caminhou muito tempo; ao longe, um pequeno grupo distanciava-se, mas não sem antes dar-lhe um último aceno.
 
Mesmo sem conhecer ou lembrar de tais pessoas Miguel respondeu, e, caminhando na direção oposta pôde vislumbrar pela última vez aquela cidade destruída, um pouco mais à frente, uma estátua, esculpida em estranha e assustada posição. Miguel tocou-a, levando depois a mão à sua boca.
 
–Sal!
 
Não sabia para onde iria e nem que lugar era aquele.
 
–É a vontade de Deus!
 
E, pela vontade de Deus, ele apoiou-se em sua espada e rezou.
 
De algum ponto no vácuo, Zearhearhael lhe observava com escárnio, e, voltando seu olhar para a cidade prateada pôs-se a caminho de casa para dar as boas novas. A missão havia sido cumprida com êxito!