PRIMEIROS PASSOS

ERAM QUASE 9 HORAS quando Alessia acordou, com o sol batndo no rosto. Nada lhe causava pior humor do que isso. Sempre tivera dificuldade em acordar, tinha um despertar lento. Precisava primeiro acostumar-se ao fato de que seus olhos estavam abertos e que qualquer coisa que acontecesse dali por diante, não pertencia mais ao mundo dos sonhos. Ah, sejamos sinceros: nem que tivesse acordado na mais completa escuridão seria diferente. Alessia é mesmo mau humorada, daquelas que lhe cortam a língua com a faca da cozinha, se você der “bom dia” no momento errado.

Levantou trançando as pernas, ainda cambaleante de sono, e desejando mais um segundo que fosse debaixo das cobertas. Deu uma passada no banheiro, fez a higiene pessoal, esqueceu a luz acesa. Certamente perceberia isso só na hora de sair de casa. A passos reticentes, chegou à cozinha, onde conseguiu, com muito esforço, passar café. Creme Irlandês, seu favorito. Com a caneca em punho, vestindo somente uma camiseta onde uma vez lia-se o logo de uma banda de metal (Marduk, provavelmente), chegou à sala. Uma olhadela por uma das tiras da persiana serviu para aumentar o “azedume”. O dia estava ensolarado e quente, as pessoas na rua sorriam. “Como conseguem acordar de bom humor no verão?”, pensou, enquanto sentava no sofá e ligava a TV, só para ter um som de fundo, enquanto tirava a camiseta e passava, com uma certa rudeza, o bloqueador solar fator 50 no corpo.

Levantou-se do sofá e caminhou até a parede onde estava pendurada toda sua coleção de armas brancas: facas, punhais, adagas, espadas. Ficou cerca de dois ou três minutos apenas olhando. A coleção havia crescido em um ano. Havia começado com uma faca de churrasco de prata, que viu em uma loja de artigos para presentes. A idéia era comprar uma daquelas para o pai, mas acabou seduzida pelo brilho da peça, e comprou também uma para si. A ela seguiram-se muitas, algumas que ela mesma havia comprado, outras que havia ganhado. Hoje a coleção estava em 150 peças, dos mais diversos modelos, tamanhos, lâminas. Agora os amigos estavam evoluindo para outras armas medievais, e já lhe haviam dado um mangual e um machado viking. “Todo mundo tem coleção de facas”, diziam eles. “O negócio é colecionar armas medievais”. Não importava. Sua paixão eram mesmo as facas. Punhais, principalmente. Lâmina triangular, afiada em ambos os lados. Usava sempre um dentro do coturno. Havia aprendido a duras penas que era uma precaução necessária quando encontrava com certos tipos na noite.

Esticou o braço e pegou um de seus favoritos: lâmina de puro aço com recortes irregulares próximo ao punho, um pentagrama invertido bem ao centro. A bainha era feita de madeira escura trabalhada com bronze, o cabo seguindo o mesmo padrão. Era pequeno, mas poderoso. E cabia perfeitamente dentro de seu coturno. Afiara a lâmina a fogo há poucos dias, estava perfeito. Desembainhou-o e fez um pequeno risco na parte interna de seu braço esquerdo. Gostava de fazer isso desde adolescente. “A auto-mutilação é uma forma de auto-punição”, diziam-lhe os psicólogos. “Bah! O que eles sabem?”. Fazia-o simplesmente por sentir prazer na ardência produzida pelo fio da adaga rasgando a pele. Alessia jamais consumira drogas, fosse o tipo que fosse. Seu único vício era esse: cortar a própria pele. Tinha um certo carinho por cada uma de suas cicatrizes.

Nesse dia, depois de acordar com um humor de assustar o próprio diabo, irritar-se ainda mais com o sol e a alegria das pessoas na rua e ficar admirando sua coleção de armas brancas, Alessia cortara novamente seu braço. Mas dessa vez foi diferente. Ficou olhando o sangue surgir na pele, primeiro em pequenas bolinhas, gotículas de um vermelho muito escuro. Apertou um pouco o corte, e viu o sangue fluir em maior quantidade. Um fio vermelho e espesso lhe escorria a pele. Era lindo…Alessia aproximou os lábios do líquido proibido e passou-lhe a língua. Ficou ainda algum tempo a saboreá-lo, olhos fechados tentando aprisionar aquele instante. Com os dentes, provocou mais sangue. Atracou-se ao próprio braço, degustando aquela descoberta, soltando pequenos gemidos enquanto o fazia, experimentando um prazer inigualável.

O toque do telefone a tirou de seu transe, jogando-a bruscamente nos braços da realidade. Olhou instintivamente o relógio no vídeo-cassete. Eram quase 10:30. Havia combinado de encontrar Ítalo às onze, na loja de tecidos. Pesquisar preços e padronagens para a nova coleção de sua grife underground.

– O que é?

– Nem vou dizer bom dia…estou na loja. Espero você aqui em meia hora.

Vestiu “qualquer coisa”: uma calça e camiseta pretas, botas, amarrou o cabelo num rabo-de-cavalo, pegou bolsa e óculos de sol e saiu ao encontro do sócio. E como era previsto, esqueceu a luz do banheiro acesa. Lembrou quando já descia as escadas; mas não voltaria por um detalhezinho desses. Apagaria quando voltasse.

– Esse corte eu não conheço, é novo? – brincou Ítalo, pegando o braço de Alessia e virando-o bem para ver a cicatriz. Há muito havia desistido de persuadi-la a parar com aquilo. A preocupação retornou quando, dias depois, presenciou a cena de Alessia atacando uma das costureiras.

Os dias que seguiram haviam sido de muito trabalho, pois a confecção estava à toda para as peças de verão; não havia descanso. Naquela semana o normal era Alessia mau-humorada, gritando ordens; Ítalo atrás, tentando suavizar os efeitos nas funcionárias. Por todo canto eram resmungos e choramingos e sustos. Foi um susto, aliás, que causou a cena que Ítalo jamais esqueceria na vida. A cortadora tentava se concentrar no trabalho, mas sempre tremera de medo de Alessia, e naquela semana ela estava ainda mais assustadora. “Eu mandei prestar atenção na aplicação desses rebites!” – repreendeu a chefe, no fundo da sala. A cortadora sentiu como se o grito tivesse sido dentro de seu ouvido, como se tivesse sido com ela. Um simples movimento errado: o tecido escapara-lhe das mãos e…era o suficiente. Tecido voando para um lado, mão indo parar direto na lâmina afiada. O corte não havia sido grande, mas profundo, bem na palma da mão. Ao presenciar o acidente, de um segundo para o outro, Alessia tornou-se doce, meiga. Ofereceu ajuda, disse que estancaria o sangue com sua saliva, enquanto alguém buscava água boricada e gase. Desde o dia em que provara do próprio sangue, quisera fazer isso: experimentar o de outrem. Mas convenhamos, como faria isso?

– Posso cortar sua pele e beber seu sangue?

Não, com certeza não. Tinha que ser mais sutil. Entretanto, aquele momento, na confecção, mostrara-se perfeito. Fechou os olhos enquanto sorvia o sangue da cortadeira apavorada, e tentava a todo custo não demonstrar sentir prazer naquilo. Mas tinha que admitir: o gosto do sangue alheio era ainda melhor que o seu, as sensações de prazer e saciedade ainda mais completas. Alessia podia enganar a todos, mas não a Ítalo. Ele viu, naqueles olhos fechados, mais do que qualquer um veria neles abertos. Mentalmente passou em sua frente a cena de Dracula de Bram Stoker, em que Gary Oldman, como Drácula, lambe a lâmina de barbear ensangüentada de Keanu Reeves, Mr. Harker. Aquilo lhe deu arrepios. Passou a ter medo de sangrar perto de Alessia. E tremia ao pensar que ela carregava sempre um punhal em sua bota.

As semanas seguintes, no entanto, não tiveram incidentes. Alessia continuava a surgir com novos cortes nos braços e pernas, continuava com seu mau-humor detestável, nada que fugisse ao normal. Com isso ele estava acostumado, sabia como lidar.

– Tem show hoje, você vai? – perguntou uma Alessia bem mais suave ao fim da tarde.

– Sim, o Rico vai estar lá. Nem vou perguntar de você e o Vitor.

Ela sorriu. Iria sim. Quem, em sã consciência, perderia um show de Marduk? Mataria por um show daqueles! E ela estava precisando de um pouco de barulho, também. Nem que fosse a banda de garagem do vizinho, iria. Solidão demais não faz bem. Vitor morava em uma cidade próxima, mas nem sempre podia estar com ela. E isso também a incomodava. Fecharam o atelier e foram para casa. Vitor havia chegado naquela manhã, já devia estar pronto lhe esperando.

– E então, vampirinha, vai demorar muito ainda? – gritou Vitor do quarto. Fazia isso para irritar, sabia que as maquiagens de Alessia levavam tempo, ainda que fosse apenas uma sombra contornando os olhos.

Ela saiu do banheiro, a roupa ainda pendurada em seu braço. No rosto, uma leve camada de pó, enfatizando a brancura natural de sua pele, lápis preto nos olhos, sombra preta nas pálpebras e embaixo. Parecia que usava uma máscara, daquelas do Carnaval de Veneza. Menos colorida, certamente. E infinitamente mais simples, menos rebuscada. A boca, de lábios carnudos e bem desenhados, estava pintada com batom preto e um toque de gloss. O cabelo ainda estava desarrumado. Vitor estava deitado na cama, em seu visual de headbanger encouraçado.

– Parece uma bruxinha – ele comentou entre risos -, não minha vampirinha.

– Quem dera eu fosse realmente “vampirinha”…mas parece que não tem nenhum vampiro de verdade interessado no meu sangue… – provocou, passando os dedos no pescoço e mostrando a jugular.

Vitor escorregara um pouco na cama, chegando mais perto dela, que continuava lá, parada, a roupa no braço e os cabelos desgrenhados. Apoiado nos braços, puxou-a para si com uma das pernas, envolvendo-lhe a cintura. Então a abraçou, beijando-lhe o pescoço e o colo, acariciando-lhe as coxas grossas e firmes, as pernas longas. Ele dizia algo como “eu estou interessado”…ou algo assim.

– Tenho que terminar de me arrumar – disse Alessia, afastando o namorado, ao mesmo tempo em que vestia o catsuit de vinil e amarrava o dragão de prata preso a uma fita de veludo preto no pescoço.

– Ah, vem cá, Les…uma rapidinha…estou com saudade… – há semanas eles não se viam mesmo. Ela estava sempre envolvida com o trabalho, ele sem grana até mesmo para pegar um ônibus e ir ver a namorada. Do carro já havia desistido há tempos. Só o tirava da garagem, quando alguém lhe propunha dividir a gasolina. Puxou-a para si enquanto ela calçava as botas, apertando-a um pouco mais contra o seu corpo.

– Eu disse que tenho que terminar de me arrumar!

Num reflexo rápido de Alessia, ele viu o punhal parar a centímetros da sua garganta. Gostava desses jogos. Mas a proximidade daquela lâmina o havia feito, por um momento, duvidar das intenções de Alessia. Por instantes, não soube definir se aquele punhal apontado para ele era um daqueles jogos, uma daquelas provocações sedutoramente perigosas, ou se realmente era marca do mau-humor diabólico que ela vinha demonstrando. E se fosse o último, então teria motivos reais para se preocupar. Naquele átimo de segundo entre a ponta da lâmina lhe chegar à garganta e o fim de suas reflexões, Vitor decidiu optar pela primeira possibilidade. Afinal, acreditava ele, “não há Alessia sem Vitor”. E riu dela.

– Que parte você não entendeu?!?

Alessia não precisou fazer esforço para cravar o punhal na garganta de Vitor e lentamente girá-lo, ainda dentro da carne do headbanger, como alguém que tranca uma porta, girando a chave na fechadura. Vitor se debatia. Sorrindo, como se tivesse quebrado uma barreira, ela aplicou um pouco mais de força e então puxou seu querido punhal de volta. O sangue jorrou em cascata. Alessia bebia dele, como se bebesse água de uma fonte pura. Era quase assim que ela se sentia.

Fez um corte em sua própria coxa, próxima ao joelho esquerdo. Ainda gostava daquilo. Com a língua limpou a lâmina, guardou-a na bainha e por fim, dentro da bota. Escovou os cabelos negros que lhe chegavam aos quadris, retocou a maquiagem que Vitor estragara com seu sangue e apagou as luzes do banheiro e do quarto. Depois pensaria em como se livrar do corpo. Sua prioridade agora era o Marduk. Vitor podia esperar, tinha certeza que estaria ali quando ela retornasse.

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~ por EstelaZ em abril 4, 2010.

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