O FIM DA MUSA?

Ela não tem coração, vocês sabem. Culpa do seu criador, Vegaard, que a privou de sentir, fosse o que fosse. Nem ódio, nem amor; nem raiva, nem alegria. Também não tinha compaixão por suas vítimas, e talvez por isso tenha se tornado uma lenda. Encantava, seduzia e brincava com os sentimentos de seus artistas, uma vez que não podia experimenta-los por si mesma. Perdeu a conta de quantos enfeitiçou com seus olhos verdes e cabelos de fogo, inspirou à criação de obras de Arte e depois matou, impiedosamente. Impossível lembrar-se de quantos levou à loucura, à solidão e ao desespero, culminando em suicídio.
 
Há meses, no entanto, Leanan Sidhe vinha sentindo-se cansada. Um cansaço físico mesmo, que doía-lhe no corpo inteiro. Há muito já não tinha vontade de levantar de sua cama, naquele quarto escuro e úmido, daquele sobrado vermelho e decadente no centro de Curitiba. Era como se aquele lugar tivesse se tornado um espaçoso túmulo, onde enterrara-se em “vida”. Scarecrow insistia, chamava-a a sairem, caçarem como nos velhos tempos, mas a vampira não tinha ânimo. Olhava-o nos olhos e não dizia uma única palavra, mas ele sempre entendia. Então saía sozinho e buscava para ela o alimento.
 
Certa noite estavam juntos deitados na cama, ele adormecido, ela sem conseguir dormir. Virou-se então de lado, a cabeça sobre o braço direito e ficou a observá-lo. Não sabia como havia acontecido, talvez tivesse desenvolvido lembranças de velhos sentimentos, mas sabia que gostava do Espantalho. Era-lhe grata pela proteção, sim, mas não era apenas isso. Gostava de estar ao lado dele, de sua companhia e de tudo o que dividiam. E era muito. Afinal, um dependia do outro para sobreviver naquele mundo que não era o seu. Raramente se afastavam, estavam sempre por perto, vigiando, cuidando. Desenvolveu por ele um carinho que jamais julgou possível. E agora doía-lhe o peito vazio.
 
– Está tudo bem, Leanan? – perguntou Scarecrow, a voz sonolenta, os olhos pesados.
 
Ela limitou-se a acenar com a cabeça.
 
Scarecrow sentia que a fada não estava falando a verdade, seus olhos jamais mentiram. E ele a conhecia como ninguém. Identificou tristeza naqueles abismos verdes, e isso o incomodou. Nunca havia visto isso nela. Especialmente com ele. Mas era  que via agora, tristeza.
 
Leanan levantou-se e desceu as escadas em direção à sala. Ficou em pé à janela, olhando para fora, como se a rua lhe pudesse dar uma resposta, como se a noite tivesse o poder de apagar aqueles sentimentos, afastar o que parecia ser irremediável.
 
– Você não está bem. – Scarecrow descera as escadas atrás dela. Abraçou-a, protegendo-a, como sempre. Dessa vez não sabia do que a protegia, mas não interessava o motivo. Queria estar ali para ela.
 
– Estou bem, Scare. Só preciso ficar um pouco aqui. – A voz dela soava embargada, tremida, voz de choro.
 
Os dias transcorreram normalmente. Leanan parecia ter recobrado um pouco da antiga energia, e saíra para caçar. Uma noite, pediu a Scarecrow para que ficasse em casa, queria ir sozinha. Ele estranhou, protestou, lembrou-a de que Lúcifer apenas esperava uma oportunidade como essa para leva-la novamente aos seus domínios. Disse-lhe que jurara ficar sempre ao seu lado, não importando o que acontecesse, e que não a deixaria só. Ela insistiu. Ele finalmente aquiesceu, com a recomendação de que chamasse por ele caso precisasse.
 
Leanan tomou o caminho do Largo da Ordem, por onde andou por alguns minutos. Observou, procurou. Em outra época, muitas teriam sido as opções ali. Mas não aquela noite. Aquela noite Leanan procurava especificamente por alguém. Chamava-se Aletse, uma contista a quem a musa inspirava já há alguns anos. Aletse escrevia sobre a vampira, narrava as histórias que a ruiva lhe contava em sonhos ao dormir. Encontrou-a no Tuba’s, sentada sozinha a uma mesa, bebendo Coca-Cola e comendo batatas fritas.
 
– Sente-se – convidou Aletse ao avistá-la na porta.
 
– É chegada a hora, Aletse.
 
A escritora tremeu. Sabia o que acontecia aos artistas inspirados por Leanan, afinal, ela mesma contara essa história dezenas de vezes. Não tentou fugir, porém. Aletse havia aceito essa condição quando Leanan lhe surgiu a primeira vez. Também não tinha tanto apego assim à vida, e andava em depressão, sentindo-se sozinha, sem motivação. Levantou-se, pagou a conta, e seguiu a vampira. De certa forma, era uma bênção a presença de Leanan ali aquela noite.
 
Caminharam em silêncio até o Jardim Botânico, entraram por um portão lateral e sentaram-se próximo à estufa, na grama.
 
– Vim cobrar meu preço, Aletse, – começou Leanan, direta – mas também vim lhe pedir um favor.  Até uma vampira precisa saber quando é hora de se retirar. A minha hora chegou. Estou cansada, fiz vítimas demais durante os séculos. Me diverti sim, é verdade. Sempre gostei do jogo. Mas há algum tempo deixou de ser divertido.
 
Os olhos de Aletse fitavam incrédulos os de Leanan. Eram parecidas fisicamente, embora o encanto de Leanan fosse imbatível.
 
– Não entendo…
 
– Vai entender. Você conhece Scarecrow, Aletse. Ele está comigo há tanto tempo que nem lembro mais. Sei que ele me ama. Sei que me é fiel nos sentimentos. Mas não posso dar a ele mais do que minha companhia. E nem tem sido grande companhia nos últimos tempos. Quero libertá-lo, e para isso preciso de sua ajuda.
 
Aletse continuava a fitar sua sósia com uma expressão perplexa. Se estava entendendo corretamente, Leanan queria a sua ajuda para morrer. Morrer de verdade, deixar de existir.
 
– Temos pouco tempo. Lúcifer deve estar a caminho, já percebeu que estou sem Scare. E Scarecrow logo virá também, ele sabe que há algo errado, que planejo alguma coisa. Eu sou uma vampira, Aletse, você sabe como me matar. Não sou a Leanan Sidhe do povo das fadas, apenas sua protegida. Não há nada de especial que você deva fazer, não há nenhum segredo, nenhum ritual que deva seguir além do que já foi exaustivamente divulgado no cinema, na literatura… Crave-me uma estaca no peito. O meu é oco, não atingirá o coração, mas rasgará o espaço em que deveria existir um. Depois corte-me a cabeça.
 
– Não trouxe minha espada, Leanan. Não saio por aí carregando armas medievais…
 
– Eu trouxe. É a espada que pertenceu a Vegaard. Nada mais justo que eu parta pela lâmina da espada daquele que me criou.
 
– Mas Scarecrow…
 
– Ele vai sofrer. Mas vai passar. Ele precisa se libertar de mim, precisa seguir seu próprio caminho. Não sei qual será, se voltará à sua forma Angélica, se servirá no Inferno ou se travará suas batalhas aqui mesmo, mas estará livre para escolher quem quiser como companhia, não terá mais obrigações para comigo.
 
– Ele jamais a perdoará.
 
– É um risco que tenho que correr.
 
A madrugada encheu-se de uma névoa espessa e fria. Lúcifer anunciava sua presença. Viera buscar a alma que tanto esperara, durante tanto tempo, e que agora se entregava a ele voluntariamente.
 
– Arrumei a casa para recebê-la, cara Fada. Há séculos aguardo por isso.
 
Aletse tremeu ao ouvir a voz do Senhor das Trevas, o Príncipe da Luz. Olhou para Leanan, esperando demovê-la daquela idéia absurda.
 
– Faça!
 
Aletse tremeu, sentia as mãos geladas, mas não de frio.
 
– Faça!
 
A vampira ruiva ordenava, com voz firme. Seria pior se o próprio Lúcifer a levasse. O sofrimento seria melhor se alguém o fizesse. E por motivos óbvios, Aletse era a mais recomendada para tanto.
 
– Faça!
 
A escritora estava paralizada. Leanan percebeu que ela não faria, a não ser que fosse levada àquilo. Então saltou sobre seu pescoço, arrancando-lhe parte da carne. A outra gritou, de dor e medo. E de raiva também. Num golpe único, cravou a espada no peito de Leanan. A vampira desequilibrou-se, caindo ao chão.
 
– Perdoe-me Scarecrow…
 
Cansado daquela cena enfadonha, o Príncipe da Luz tomou a dianteira. Também não permitiria que Leanan salvasse sua alma, separando a cabeça do corpo. Queria-a inteira no Inferno. Queria torturá-la, fazê-la sofrer pelas almas que ela roubara de seus domínios.
 
Envolveu-a em um manto de fumaça negra e a carregou para as profundezas.
 
– Leanan!
 
Scarecrow pressentiu que algo estava acontecendo, mas já era tarde. Viu Aletse no chão, a garganta dilacerada. Era a imagem de Leanan. Teve impulsos de protegê-la, como teria feito com a fada, mas não o fez. Leanan havia decidido sozinha, não lhe perguntara, não pedira sua opinião, não levara em conta seus sentimentos, apenas o abandonara. Aletse morreria também.

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~ por EstelaZ em maio 18, 2007.

3 Respostas to “O FIM DA MUSA?”

  1. muito bom, gostei do desenrolar ddessa história
     

  2. Partiu? Leanan nunca pertenceu a este mundo…ela sempre quis seguir para outros caminhos…mas será este realmente o seu final? Me lembro dessa guerreira de outros tempos, de outras batalhas…se esse foi seu desejo, que Constâncio esteja com ela… e que os dois estejam em paz…

  3. Boa noite!
     
    Sou veterana no Space e gostaria de saber sua opinião , voltei a poucos dias a cuidar do meu space , voce pode me ajudar com sua opinião?
     
    Obrigada antecipadamente!
     
    Bjus *
     
    Sami
    Nota  1000 seu blog!
     
     

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