O BANQUETE (Scarecrow)

Contam certas histórias que, na Inglaterra do século 18, o catolicismo sofreu um duro golpe. Novos ventos sopravam pela Europa: a Rússia dos Czares, pelas mãos de Catarina, a Grande, permite a liberdade religiosa; nos Estados Unidos, os testes religiosos são abolidos como requisito para altos cargos governamentais.
 
Esse contexto gerou solo fértil para George Whitefield, um pregador protestante que, aproveitando-se do conturbado momento londrino, foi rapidamente conquistando simpatizantes e poder. Conhecido por discursos e atitudes implacáveis contra os inimigos de sua fé, tocava com mão de ferro sua congregação, que já contava com membros importantes do parlamento, que obedeciam cegamente suas ordens.
 
Londres estava em convulsão, a criminalidade assolava as ruas, o aparelho social mostrava-se ineficiente. A cada manhã, mortos e mais mortos davam entrada no necrotério, seres que perdiam as vida das formas mais bizarras.
 
Whitefield era um homem versado nas artes do oculto e, tendo conhecimento da agitação no underground londrino, sabia que a cidade estava infestada de necromantes, bruxos e que até mesmo alguns vampiros colecionavam corpos todas as madrugadas. Mas nada lhe causava tanto ódio quanto a engenhosa movimentação dos rosacruzes, que nas sombras arrebanhavam aliados e já ameaçavam penetrar nas esferas do poder político.
 
Uma brigada cristã foi então organizada por ele e, nas noites boêmias da capital, uma nova onda de assassinatos saltava aos olhos. Com o apoio velado de boa parte do parlamento e o silêncio cúmplice dos católicos, Whitefield criou sua própria inquisição no submundo de Londres, sem tribunais ou direito à defesa. Todos os que supostamente estavam envolvidos com atividades ocultas eram acusados de serem rosacruzes e sumariamente exterminados.
 
Passado quase um ano, o genocídio gerava resultados. Quase todos os indesejáveis haviam sido banidos, os que restaram estavam escondidos, e a fúria louca de Whitefield crescia.
 
Foi numa dessas noites de apreensão que Leanan resolveu sair pelas ruas. Alguns de seus conhecidos vampiros haviam caído nas mãos da brigada cristã e foram executados com requintes de crueldade. Atenta ela caminhava. Tudo era incerto nas madrugadas regadas a vinho e cerveja caseira com o círculo de pintores e poetas. Uma noite ela conheceu Molly, uma jovem prostituta de brilho singular, na flor de seus 18 anos, de uma sensualidade ao mesmo tempo infantil e selvagem, que fazia Leanan lembrar-se de sua distante juventude cronológica nas fogueiras de Beltane. Molly vinha risonha pela rua, estendendo ainda mais o sorriso ao ver Leanan. Sempre admirou a personalidade altiva daquela mulher, de uma beleza rara e implacável, talvez a única mulher em Londres que Molly invejava, sonhava em ser como ela.
 
— Boa noite senhorita Leanan.
 
Cerca de duas horas depois estavam a beber e conversar. Leanan notou que Molly carregava muito dinheiro. Curiosidade que logo foi satisfeita. Embriagada, Molly começava a lhe contar sobre suas peripécias sexuais, sobre como estava melhorando, deixando de atender a bêbados falidos para servir a membros da côrte, e de altos escalões do governo. Contara sobre as festas regadas a muito sexo e luxo, e o principal: revelara que a partir daquele dia se dedicaria a um único freguês: George Whitefield! Leanan teve que esforçar-se para não revelar o prazer que essa informação lhe trazia. Enfim uma fraqueza na armadura do colérico genocida religioso!
 
Passaram-se os dias, e os encontros entre Leanan e Molly ficaram mais freqüentes, detalhes picantes sobre as taras de Whitefield iam sendo revelados: sadismo, tortura, humilhação, algo um tanto exótico para um conservador líder espiritual.
 
Foi numa noite tempestuosa que uma recepção a portas fechadas foi organizada numa mansão em  Covent Garden. O anfitrião: George Whitefield. Naquela ocasião, Molly trajou-se com muito esmero, estava absurdamente linda! Ao entrar no salão, divertiu-se com os olhares de franco desejo que vinham dos homens, e da inveja cortante de outras prostitutas que estava por ali. Na festa, além do próprio Whitefield, que a tomara pelas mãos, outros distintos representantes da elite londrina se encontravam, todos à vontade e entregues aos prazeres.
 
A noite avançou, o vinho era abundante, e por fim o descontrole chegou. Aqueles senhores estavam agora a sodomizar suas escolhidas aos olhos de quem quisesse ver. Nas mesas, sofás e corredores, a luxúria se apresentava sem retoques. Molly, sentindo-se tocada pelas mãos de Whitefield, entregou-se rapidamente. O prazer lhe inundava, o vinho a entorpecia, em dado momento sentiu-se girando, como se chamada a uma dança desconhecida. Deixando-se levar, experimentava aquela doce sensação, tal como uma criança a ser embalada. Sentia-se tão bem que ignorava os gritos que começavam a soar em seu redor.
 
Os gritos pareciam vir de todos os lados, aterrorizados, urgentes, ruídos de coisas quebradas, brados de clemência, fúria… Em dado momento aquela balbúrdia auditiva chamou sua atenção. Molly olhou para a sala, só a tempo de ver rapidamente uma linda mulher ruiva a exibir caninos assustadores que vertiam sangue quente. E segurando suas mãos naquela dança fúnebre…um espantalho! Molly foi tomada de um terror que jamais havia experimentado antes. Queria livrar-se daquela dança, aquela criatura lhe sorria horrorosamente. Molly gritou, como nunca pensou que pudesse gritar! Sentiu seu corpo cair, viu-se então novamente no interior da mansão, a cena que presenciava fugia a qualquer descrição: corpos dilacerados, sangue, pedaços de carne e membros decepados por todos os lados, um frenesi de cadáveres como ela nunca imaginou.
 
Próximo à porta, um corpo suspenso e destruído. Próximo a ele, numa elegante bandeja, a cabeça de George Whitefield.
 
Molly não sabia o que fazer, o que pensar, nem notara que já amanhecia o dia e que a policia londrina já arrombava a porta da mansão, atraída pelos chamados anônimos que davam conta de uma carnificina jamais vista na terra da rainha!

 

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~ por EstelaZ em abril 1, 2006.

3 Respostas to “O BANQUETE (Scarecrow)”

  1. Olá! Não sei a quem me referir aqui, se à Leanan ou ao Scarecrow. Opto pelo Scarecrow, pois é o aoutor do texto…cara, parabéns pelo excelente conto. Você e a Leanan são meus escritores virtuais favoritos, tenho acompanhado a saga de vocês há algum tempo. Teu texto é muito bom, a forma como você mistura fatos históricos com fantasia é perfeita, nos faz realmente viajar na história. Tem aquele do Jack o Estirpador que é muito massa! Uma amiga minha disse que esse Whitefield é real também, aí fui pesquisar. Muito bom. E Scarecrow parece mesmo apaixonado pela Lenan, da forma como só nós os homens entendemos/(mas nesse conto, o Banquete, parece que eles não estão muito jiuntos). As mulheres geralmente não sacam como funciona isso no nosso caso. Mas o Scraecrow devia se impor mais com relação à Lenan, cobrar dela uma posição. Ela não pode ser sempre tão forte, e se esquivar tanto. Mostre a força masculina cara, fica com essa vampira de uma vez. Afinal,. vive protegendo ela, fazendo tudo por ela. Essa minha amiga (Roberta, ela vem sempre ler os contos aqui também – esse comentário é meu e dela) concorda comigo, que vo"^es deviam escrever um romance entre os dois. Saca aquelas histórias que a gente fica torcendo pro casal ficar junto?
    Ah, eu queria saber se vocês vão trazer de volta alguns personagens de outras histórias, queria muito saber o que aconteceu com aquele cara do Os Olhos de Lenan Sidhe, que não morreu. E tem outro, de um outro conto, o que foi pego no flagra pela namorada, não lembro de qual histótia é.
    Abraço, e mais uma vez parabéns. Sou um fã declarado. Gustavo

  2. seu space esta ótimo…
    curti o som.. e tem bastante conteudo..
    gostaria de saber como vc colocou o contador de usuários..
    boa semana xD

  3. Uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua, quando baixa no céu, e se assemelha ao vulto de um
     
    homem: mas não era a sombra de um homem, nem a sombra de um Deus, nem a de qualquer outro ente conhecido.
     
    E tremendo, um instante, entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente, sobre a superfície da porta de
     
    ébano. Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e não era sombra, nem de homem, nem de Deus, de deus da Grécia,
     
    de deus da Caldéia, de deus egípcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e não
     
    se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imutável. Os pés do jovem Zoilo amortalhado, encontraram-
     
    se, se bem me lembro, na porta sobre a qual a sombra repousava. Nós, porém, os sete ali reunidos, tendo avistado a
     
    sombra, no momento em que se destacava dentre os reposteiros, não ousávamos olhá-la fixamente, mas baixávamos os
     
    olhos, e fixávamos sem desvio as profundezas do espelho de ébano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras
     
    em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e seu lugar de nascimento. E a sombra respondeu: 
         – Eu sou a sombra e minha morada está perto das Catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies infernais, que orlam o sujo canal de Caronte. 
         E então, todos os sete erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra
     
    não era o de um só ser, mas de uma multidão de seres e, variando nas suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava aos nossos ouvidos
     
    confusamente, como se fossem as entonações familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos, que a morte ceifara.

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