ABRA A BOCA E FECHE OS OLHOS

Era noite fechada quando eles se encontraram. Havia poucas pessoas nas ruas. Em pleno inverno rigoroso, poucos se arriscavam a sair de casa. Era diferente no verão: ruas sempre cheias, bares lotados.
 
Eles haviam marcado encontro em um bar recém inaugurado, "Grey Clouds Pub", dizia a placa. Mas as pessoas já o chamavam de "Cinza".
 
No sábado, sempre havia algumas bandas underground tocando no Cinza, estilos variados. Naquele sábado, era dia de trash metal. Duas bandas iam tocar, uma delas de conhecidos seus. Entrou no bar e dirigiu-se ao balcão. Cumprimentou o barman, pediu uma bebida e foi até o salão maior, nos fundos, onde o barulho já havia começado.
 
– Tem alguém procurando por você, Silene – avisou um dos freqüentadores do local – um cara meio estranho… Se precisar de ajuda, estamos aqui.
 
Ela agradeceu, mas não seria necessário. Silene sabia se cuidar, nunca havia precisado de guarda-costas antes, não seria aquela a primeira vez.
 
Silene conhecia todo mundo, era figurinha fácil no meio underground. Onde chegava, todos a cercavam. Por isso, aliás, não foi difícil reconhecer "o estranho" que perguntara por ela no meio daquela multidão. Ele tinha os cabelos na altura dos ombros, meio aloirados. Os olhos eram pretos e grandes como duas jabuticabas, profundos.
 
– Sérgio?
 
– Eu mesmo, gata. Estava à sua procura. Você me disse na internet que estaria de preto, mas isso não ajuda muito aqui. Teria sido mais fácil se você tivesse me enviado sua foto.
 
Ela riu.
 
Ele então parou de falar e olhou para ela. Bonita. Olhos azuis, cabelos castanhos e lisos, com um leve toque de tinta azul celeste nas pontas. Assistiram ao show juntos, beberam, ela o apresentou a alguns amigos. Depois decidiram que a noite ainda prometia muitos prazeres e saíram sem rumo definido. No meio do caminho entre o bar e lugar nenhum, decidiram ir à casa dele.
 
O apartamento ficava num prédio antigo. Entraram no elevador e ele apertou o 13° andar. Olhou de canto de olho para a Silene, como se esperasse alguma reação. Ela, no entanto, parecia nem ter notado, ou simplesmente não dava atenção a crendices ou coisas do tipo. Sérgio ficou um pouco decepcionado. Morar no 13° andar sempre impressionara as garotas com quem saía. Era como se houvesse uma aura de mistério no ar. Todas elas, ao menos comentavam: “Hmmmmm, 13° andar, hein?”
 
Silene não fez nada. Não comentou nada, não perguntou nada, nem notou nada.
 
– Venha. O apartamento fica por aqui – disse ele, mostrando o corredor esquerdo.
 
13° andar, corredor esquerdo…e nenhuma reação de Silene. Será que a garota era tapada? Ele não costumava errar daquele jeito, quando escolhia suas garotas na internet. Nos papos pelo MSN ela parecia tão…receptiva, tão…influenciável…
 
Tirou a chave do bolso. Os olhos vermelhos de uma caveira preta reluziam em seu chaveiro. ("Ela vai dizer alguma coisa…") Sérgio estava cada segundo mais frustrado. Agora sim, ela iria comentar…apartamento de paredes negras, decoração em veludo, seda e cetim vermelho e roxo. Não havia quem ficasse indiferente a isso. Uma caveira era o suporte da antena de sua TV. Candelabros de dragão eram os abajures que ladeavam o sofá de ossos.
 
Nada. Nem mesmo uma alteração na expressão. Não arregalou os olhos, não sorriu, não olhou admirada para nada…
 
– Quer subir? – perguntou ele já em desespero. Seu quarto era a última cartada. Ela aceitou. Subiu as escadas em caracol, carpete vermelho. Na porta do quarto, um enorme pentagrama invertido. A cama era uma atração à parte: em forma de caixão, com alças e tudo. Caixão de casal, obviamente, que ele não era bobo. Na janela pendiam tules e retalhos de tecidos em preto, roxo e vermelho. Tinha espelhos no teto e na parede maior.
 
– O que achou? – ele perguntou, rendendo-se à curiosidade.
 
Ela acenou com a cabeça, meio que indiferente, como que a dizer: "é, legal…" Sérgio já não suportava aquilo. Garota estúpida! Ela ia ver só o que era bom! Ajudou-a com a bolsa e atirou-a na cama, jogando-se sobre ela. Começou com beijos violentos e apressados, foi rasgando-lhe a roupa com voracidade. Ela não parecia se importar.
 
– Você tem algum problema? – disparou, já totalmente irritado.
 
Silene abriu a o macacão de vinil que usava, enfiou a mão por dentro e retirou, de uma faixa presa ao corpo, uma faca de lâmina ondulada e espessa. Sérgio sorriu. Finalmente ela entrara no clima da brincadeira. Ela passou a lâmina entre os lábios e desceu-a, deslizando-a por todo seu corpo. Sérgio estava visivelmente gostando daquilo.
 
– Faz mais, mostra mais… – dizia ele, animado.
 
Ela sorriu. Levantou da cama, despiu o macacão, mas manteve as botas, de couro vermelho envernizado.
 
– Vem aqui, vem… – provocou. Sérgio sabia que era provocação, mas não se conteve assim mesmo. Saltou em sua direção, agarrando-a. Lambeu a orelha, acariciou os ombros, mordeu o pescoço.
 
Ela o abraçava mais forte, cada vez que ele investia com os dentes em sua pele. Ele sorriu. Sorriso largo, deixando entrever os caninos afiados que haviam-lhe custado o salário de um mês no dentista.
 
Aquilo não podia ser verdade! Até dentes afiados?? Assim já era demais! Uma coisa era ser brega. Outra bem diferente era ser imbecil e acreditar que todas as mulheres também o eram.
 
– Tenho uma surpresinha pra você…  – disse a ele, a voz sussurrada, próxima ao ouvido. – …mas terá que deitar direitinho e fazer tudo o que eu mandar…
 
Ele não respondeu. Acenou com a cabeça apenas e deitou-se, excitado com o que certamente viria a seguir.
 
– Feche os olhos – ordenou ela.
 
Ele fechou.
 
Silene tirou de dentro da bolsa dois pares de algemas, que prendeu nos pulsos de Sérgio e nas alças de seu caixão King Size.
 
– Agora seja um bom menino e abra a boquinha…
 
"Hmmmmmm" – pensou ele – "será que vai cortar a pele e me dar o sangue?"
 
Silene olhou para a cena, fotografando-a em sua memória. O que fazia um homem daquele tamanho passar por algo ridículo como aquilo? Olhou-se nos espelhos e deu o braço a torcer. Era bonita, se fosse homem também faria o que ela mandasse.
 
Sérgio já começava a salivar, e a saliva já escorria pelo canto da boca. Silene sentou-se sobre ele. As botas vermelhas segurando firmemente seu rosto entre as pernas.
 
Ele gemeu…
 
– Não se mexa agora, gatinho, ou vai doer…
 
Ele fez que sim, e manteve-se de olhos fechados e boca aberta, exatamente como ela havia pedido.
 
Silene pegou novamente sua faca ondulada, encostou-a no rosto de Sérgio e passou sobre ele a lâmina afiada. Ele gemia de prazer. Enfiou a lâmina em sua boca, movimentos suaves, fazendo-o sentir o gosto do metal gelado. Então com a ponta cortou sua gengiva, em cada um dos caninos afiados, e arrancou-lhe os dentes.
 
Sérgio gritava.
 
Acostumados com as orgias no apartamento do moço, nenhum dos vizinhos foi acudir. Silene saiu do prédio, voltou para casa e ligou sua internet. No dia seguinte, amigos de Sérgio o encontram nu e algemado em sua cama, deitado em um lençol empapado de sangue. Os caninos estavam sobre o travesseiro, num saquinho de veludo negro.
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~ por EstelaZ em janeiro 1, 2006.

4 Respostas to “ABRA A BOCA E FECHE OS OLHOS”

  1. Rs.. eu adoro esse conto você sabe bem. o poser mereceu perder o salarios nos dentes, e os dentes na faca. Beijos doçura…

  2. Adorei o conto, mas me desculpe, eu achei sem logica, não entendi. Se você poder me enviar um e-mail para me exolicar, agradeço.bjs, Carlos – Kadu

  3. vc sabe q sou fã.adorei o conto.huahuahuahua

  4. Hail…como esta tudo blza???
    Mas que garota malvada hein..parece ate uma conhecida minha a Alessia
    Bjos
    Aparece

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