PRIMEIROS PASSOS

•abril 4, 2010 • Deixe um comentário

ERAM QUASE 9 HORAS quando Alessia acordou, com o sol batndo no rosto. Nada lhe causava pior humor do que isso. Sempre tivera dificuldade em acordar, tinha um despertar lento. Precisava primeiro acostumar-se ao fato de que seus olhos estavam abertos e que qualquer coisa que acontecesse dali por diante, não pertencia mais ao mundo dos sonhos. Ah, sejamos sinceros: nem que tivesse acordado na mais completa escuridão seria diferente. Alessia é mesmo mau humorada, daquelas que lhe cortam a língua com a faca da cozinha, se você der “bom dia” no momento errado.

Levantou trançando as pernas, ainda cambaleante de sono, e desejando mais um segundo que fosse debaixo das cobertas. Deu uma passada no banheiro, fez a higiene pessoal, esqueceu a luz acesa. Certamente perceberia isso só na hora de sair de casa. A passos reticentes, chegou à cozinha, onde conseguiu, com muito esforço, passar café. Creme Irlandês, seu favorito. Com a caneca em punho, vestindo somente uma camiseta onde uma vez lia-se o logo de uma banda de metal (Marduk, provavelmente), chegou à sala. Uma olhadela por uma das tiras da persiana serviu para aumentar o “azedume”. O dia estava ensolarado e quente, as pessoas na rua sorriam. “Como conseguem acordar de bom humor no verão?”, pensou, enquanto sentava no sofá e ligava a TV, só para ter um som de fundo, enquanto tirava a camiseta e passava, com uma certa rudeza, o bloqueador solar fator 50 no corpo.

Levantou-se do sofá e caminhou até a parede onde estava pendurada toda sua coleção de armas brancas: facas, punhais, adagas, espadas. Ficou cerca de dois ou três minutos apenas olhando. A coleção havia crescido em um ano. Havia começado com uma faca de churrasco de prata, que viu em uma loja de artigos para presentes. A idéia era comprar uma daquelas para o pai, mas acabou seduzida pelo brilho da peça, e comprou também uma para si. A ela seguiram-se muitas, algumas que ela mesma havia comprado, outras que havia ganhado. Hoje a coleção estava em 150 peças, dos mais diversos modelos, tamanhos, lâminas. Agora os amigos estavam evoluindo para outras armas medievais, e já lhe haviam dado um mangual e um machado viking. “Todo mundo tem coleção de facas”, diziam eles. “O negócio é colecionar armas medievais”. Não importava. Sua paixão eram mesmo as facas. Punhais, principalmente. Lâmina triangular, afiada em ambos os lados. Usava sempre um dentro do coturno. Havia aprendido a duras penas que era uma precaução necessária quando encontrava com certos tipos na noite.

Esticou o braço e pegou um de seus favoritos: lâmina de puro aço com recortes irregulares próximo ao punho, um pentagrama invertido bem ao centro. A bainha era feita de madeira escura trabalhada com bronze, o cabo seguindo o mesmo padrão. Era pequeno, mas poderoso. E cabia perfeitamente dentro de seu coturno. Afiara a lâmina a fogo há poucos dias, estava perfeito. Desembainhou-o e fez um pequeno risco na parte interna de seu braço esquerdo. Gostava de fazer isso desde adolescente. “A auto-mutilação é uma forma de auto-punição”, diziam-lhe os psicólogos. “Bah! O que eles sabem?”. Fazia-o simplesmente por sentir prazer na ardência produzida pelo fio da adaga rasgando a pele. Alessia jamais consumira drogas, fosse o tipo que fosse. Seu único vício era esse: cortar a própria pele. Tinha um certo carinho por cada uma de suas cicatrizes.

Nesse dia, depois de acordar com um humor de assustar o próprio diabo, irritar-se ainda mais com o sol e a alegria das pessoas na rua e ficar admirando sua coleção de armas brancas, Alessia cortara novamente seu braço. Mas dessa vez foi diferente. Ficou olhando o sangue surgir na pele, primeiro em pequenas bolinhas, gotículas de um vermelho muito escuro. Apertou um pouco o corte, e viu o sangue fluir em maior quantidade. Um fio vermelho e espesso lhe escorria a pele. Era lindo…Alessia aproximou os lábios do líquido proibido e passou-lhe a língua. Ficou ainda algum tempo a saboreá-lo, olhos fechados tentando aprisionar aquele instante. Com os dentes, provocou mais sangue. Atracou-se ao próprio braço, degustando aquela descoberta, soltando pequenos gemidos enquanto o fazia, experimentando um prazer inigualável.

O toque do telefone a tirou de seu transe, jogando-a bruscamente nos braços da realidade. Olhou instintivamente o relógio no vídeo-cassete. Eram quase 10:30. Havia combinado de encontrar Ítalo às onze, na loja de tecidos. Pesquisar preços e padronagens para a nova coleção de sua grife underground.

– O que é?

– Nem vou dizer bom dia…estou na loja. Espero você aqui em meia hora.

Vestiu “qualquer coisa”: uma calça e camiseta pretas, botas, amarrou o cabelo num rabo-de-cavalo, pegou bolsa e óculos de sol e saiu ao encontro do sócio. E como era previsto, esqueceu a luz do banheiro acesa. Lembrou quando já descia as escadas; mas não voltaria por um detalhezinho desses. Apagaria quando voltasse.

– Esse corte eu não conheço, é novo? – brincou Ítalo, pegando o braço de Alessia e virando-o bem para ver a cicatriz. Há muito havia desistido de persuadi-la a parar com aquilo. A preocupação retornou quando, dias depois, presenciou a cena de Alessia atacando uma das costureiras.

Os dias que seguiram haviam sido de muito trabalho, pois a confecção estava à toda para as peças de verão; não havia descanso. Naquela semana o normal era Alessia mau-humorada, gritando ordens; Ítalo atrás, tentando suavizar os efeitos nas funcionárias. Por todo canto eram resmungos e choramingos e sustos. Foi um susto, aliás, que causou a cena que Ítalo jamais esqueceria na vida. A cortadora tentava se concentrar no trabalho, mas sempre tremera de medo de Alessia, e naquela semana ela estava ainda mais assustadora. “Eu mandei prestar atenção na aplicação desses rebites!” – repreendeu a chefe, no fundo da sala. A cortadora sentiu como se o grito tivesse sido dentro de seu ouvido, como se tivesse sido com ela. Um simples movimento errado: o tecido escapara-lhe das mãos e…era o suficiente. Tecido voando para um lado, mão indo parar direto na lâmina afiada. O corte não havia sido grande, mas profundo, bem na palma da mão. Ao presenciar o acidente, de um segundo para o outro, Alessia tornou-se doce, meiga. Ofereceu ajuda, disse que estancaria o sangue com sua saliva, enquanto alguém buscava água boricada e gase. Desde o dia em que provara do próprio sangue, quisera fazer isso: experimentar o de outrem. Mas convenhamos, como faria isso?

– Posso cortar sua pele e beber seu sangue?

Não, com certeza não. Tinha que ser mais sutil. Entretanto, aquele momento, na confecção, mostrara-se perfeito. Fechou os olhos enquanto sorvia o sangue da cortadeira apavorada, e tentava a todo custo não demonstrar sentir prazer naquilo. Mas tinha que admitir: o gosto do sangue alheio era ainda melhor que o seu, as sensações de prazer e saciedade ainda mais completas. Alessia podia enganar a todos, mas não a Ítalo. Ele viu, naqueles olhos fechados, mais do que qualquer um veria neles abertos. Mentalmente passou em sua frente a cena de Dracula de Bram Stoker, em que Gary Oldman, como Drácula, lambe a lâmina de barbear ensangüentada de Keanu Reeves, Mr. Harker. Aquilo lhe deu arrepios. Passou a ter medo de sangrar perto de Alessia. E tremia ao pensar que ela carregava sempre um punhal em sua bota.

As semanas seguintes, no entanto, não tiveram incidentes. Alessia continuava a surgir com novos cortes nos braços e pernas, continuava com seu mau-humor detestável, nada que fugisse ao normal. Com isso ele estava acostumado, sabia como lidar.

– Tem show hoje, você vai? – perguntou uma Alessia bem mais suave ao fim da tarde.

– Sim, o Rico vai estar lá. Nem vou perguntar de você e o Vitor.

Ela sorriu. Iria sim. Quem, em sã consciência, perderia um show de Marduk? Mataria por um show daqueles! E ela estava precisando de um pouco de barulho, também. Nem que fosse a banda de garagem do vizinho, iria. Solidão demais não faz bem. Vitor morava em uma cidade próxima, mas nem sempre podia estar com ela. E isso também a incomodava. Fecharam o atelier e foram para casa. Vitor havia chegado naquela manhã, já devia estar pronto lhe esperando.

– E então, vampirinha, vai demorar muito ainda? – gritou Vitor do quarto. Fazia isso para irritar, sabia que as maquiagens de Alessia levavam tempo, ainda que fosse apenas uma sombra contornando os olhos.

Ela saiu do banheiro, a roupa ainda pendurada em seu braço. No rosto, uma leve camada de pó, enfatizando a brancura natural de sua pele, lápis preto nos olhos, sombra preta nas pálpebras e embaixo. Parecia que usava uma máscara, daquelas do Carnaval de Veneza. Menos colorida, certamente. E infinitamente mais simples, menos rebuscada. A boca, de lábios carnudos e bem desenhados, estava pintada com batom preto e um toque de gloss. O cabelo ainda estava desarrumado. Vitor estava deitado na cama, em seu visual de headbanger encouraçado.

– Parece uma bruxinha – ele comentou entre risos -, não minha vampirinha.

– Quem dera eu fosse realmente “vampirinha”…mas parece que não tem nenhum vampiro de verdade interessado no meu sangue… – provocou, passando os dedos no pescoço e mostrando a jugular.

Vitor escorregara um pouco na cama, chegando mais perto dela, que continuava lá, parada, a roupa no braço e os cabelos desgrenhados. Apoiado nos braços, puxou-a para si com uma das pernas, envolvendo-lhe a cintura. Então a abraçou, beijando-lhe o pescoço e o colo, acariciando-lhe as coxas grossas e firmes, as pernas longas. Ele dizia algo como “eu estou interessado”…ou algo assim.

– Tenho que terminar de me arrumar – disse Alessia, afastando o namorado, ao mesmo tempo em que vestia o catsuit de vinil e amarrava o dragão de prata preso a uma fita de veludo preto no pescoço.

– Ah, vem cá, Les…uma rapidinha…estou com saudade… – há semanas eles não se viam mesmo. Ela estava sempre envolvida com o trabalho, ele sem grana até mesmo para pegar um ônibus e ir ver a namorada. Do carro já havia desistido há tempos. Só o tirava da garagem, quando alguém lhe propunha dividir a gasolina. Puxou-a para si enquanto ela calçava as botas, apertando-a um pouco mais contra o seu corpo.

– Eu disse que tenho que terminar de me arrumar!

Num reflexo rápido de Alessia, ele viu o punhal parar a centímetros da sua garganta. Gostava desses jogos. Mas a proximidade daquela lâmina o havia feito, por um momento, duvidar das intenções de Alessia. Por instantes, não soube definir se aquele punhal apontado para ele era um daqueles jogos, uma daquelas provocações sedutoramente perigosas, ou se realmente era marca do mau-humor diabólico que ela vinha demonstrando. E se fosse o último, então teria motivos reais para se preocupar. Naquele átimo de segundo entre a ponta da lâmina lhe chegar à garganta e o fim de suas reflexões, Vitor decidiu optar pela primeira possibilidade. Afinal, acreditava ele, “não há Alessia sem Vitor”. E riu dela.

– Que parte você não entendeu?!?

Alessia não precisou fazer esforço para cravar o punhal na garganta de Vitor e lentamente girá-lo, ainda dentro da carne do headbanger, como alguém que tranca uma porta, girando a chave na fechadura. Vitor se debatia. Sorrindo, como se tivesse quebrado uma barreira, ela aplicou um pouco mais de força e então puxou seu querido punhal de volta. O sangue jorrou em cascata. Alessia bebia dele, como se bebesse água de uma fonte pura. Era quase assim que ela se sentia.

Fez um corte em sua própria coxa, próxima ao joelho esquerdo. Ainda gostava daquilo. Com a língua limpou a lâmina, guardou-a na bainha e por fim, dentro da bota. Escovou os cabelos negros que lhe chegavam aos quadris, retocou a maquiagem que Vitor estragara com seu sangue e apagou as luzes do banheiro e do quarto. Depois pensaria em como se livrar do corpo. Sua prioridade agora era o Marduk. Vitor podia esperar, tinha certeza que estaria ali quando ela retornasse.

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O FIM DA MUSA?

•maio 18, 2007 • 3 Comentários

Ela não tem coração, vocês sabem. Culpa do seu criador, Vegaard, que a privou de sentir, fosse o que fosse. Nem ódio, nem amor; nem raiva, nem alegria. Também não tinha compaixão por suas vítimas, e talvez por isso tenha se tornado uma lenda. Encantava, seduzia e brincava com os sentimentos de seus artistas, uma vez que não podia experimenta-los por si mesma. Perdeu a conta de quantos enfeitiçou com seus olhos verdes e cabelos de fogo, inspirou à criação de obras de Arte e depois matou, impiedosamente. Impossível lembrar-se de quantos levou à loucura, à solidão e ao desespero, culminando em suicídio.
 
Há meses, no entanto, Leanan Sidhe vinha sentindo-se cansada. Um cansaço físico mesmo, que doía-lhe no corpo inteiro. Há muito já não tinha vontade de levantar de sua cama, naquele quarto escuro e úmido, daquele sobrado vermelho e decadente no centro de Curitiba. Era como se aquele lugar tivesse se tornado um espaçoso túmulo, onde enterrara-se em “vida”. Scarecrow insistia, chamava-a a sairem, caçarem como nos velhos tempos, mas a vampira não tinha ânimo. Olhava-o nos olhos e não dizia uma única palavra, mas ele sempre entendia. Então saía sozinho e buscava para ela o alimento.
 
Certa noite estavam juntos deitados na cama, ele adormecido, ela sem conseguir dormir. Virou-se então de lado, a cabeça sobre o braço direito e ficou a observá-lo. Não sabia como havia acontecido, talvez tivesse desenvolvido lembranças de velhos sentimentos, mas sabia que gostava do Espantalho. Era-lhe grata pela proteção, sim, mas não era apenas isso. Gostava de estar ao lado dele, de sua companhia e de tudo o que dividiam. E era muito. Afinal, um dependia do outro para sobreviver naquele mundo que não era o seu. Raramente se afastavam, estavam sempre por perto, vigiando, cuidando. Desenvolveu por ele um carinho que jamais julgou possível. E agora doía-lhe o peito vazio.
 
– Está tudo bem, Leanan? – perguntou Scarecrow, a voz sonolenta, os olhos pesados.
 
Ela limitou-se a acenar com a cabeça.
 
Scarecrow sentia que a fada não estava falando a verdade, seus olhos jamais mentiram. E ele a conhecia como ninguém. Identificou tristeza naqueles abismos verdes, e isso o incomodou. Nunca havia visto isso nela. Especialmente com ele. Mas era  que via agora, tristeza.
 
Leanan levantou-se e desceu as escadas em direção à sala. Ficou em pé à janela, olhando para fora, como se a rua lhe pudesse dar uma resposta, como se a noite tivesse o poder de apagar aqueles sentimentos, afastar o que parecia ser irremediável.
 
– Você não está bem. – Scarecrow descera as escadas atrás dela. Abraçou-a, protegendo-a, como sempre. Dessa vez não sabia do que a protegia, mas não interessava o motivo. Queria estar ali para ela.
 
– Estou bem, Scare. Só preciso ficar um pouco aqui. – A voz dela soava embargada, tremida, voz de choro.
 
Os dias transcorreram normalmente. Leanan parecia ter recobrado um pouco da antiga energia, e saíra para caçar. Uma noite, pediu a Scarecrow para que ficasse em casa, queria ir sozinha. Ele estranhou, protestou, lembrou-a de que Lúcifer apenas esperava uma oportunidade como essa para leva-la novamente aos seus domínios. Disse-lhe que jurara ficar sempre ao seu lado, não importando o que acontecesse, e que não a deixaria só. Ela insistiu. Ele finalmente aquiesceu, com a recomendação de que chamasse por ele caso precisasse.
 
Leanan tomou o caminho do Largo da Ordem, por onde andou por alguns minutos. Observou, procurou. Em outra época, muitas teriam sido as opções ali. Mas não aquela noite. Aquela noite Leanan procurava especificamente por alguém. Chamava-se Aletse, uma contista a quem a musa inspirava já há alguns anos. Aletse escrevia sobre a vampira, narrava as histórias que a ruiva lhe contava em sonhos ao dormir. Encontrou-a no Tuba’s, sentada sozinha a uma mesa, bebendo Coca-Cola e comendo batatas fritas.
 
– Sente-se – convidou Aletse ao avistá-la na porta.
 
– É chegada a hora, Aletse.
 
A escritora tremeu. Sabia o que acontecia aos artistas inspirados por Leanan, afinal, ela mesma contara essa história dezenas de vezes. Não tentou fugir, porém. Aletse havia aceito essa condição quando Leanan lhe surgiu a primeira vez. Também não tinha tanto apego assim à vida, e andava em depressão, sentindo-se sozinha, sem motivação. Levantou-se, pagou a conta, e seguiu a vampira. De certa forma, era uma bênção a presença de Leanan ali aquela noite.
 
Caminharam em silêncio até o Jardim Botânico, entraram por um portão lateral e sentaram-se próximo à estufa, na grama.
 
– Vim cobrar meu preço, Aletse, – começou Leanan, direta – mas também vim lhe pedir um favor.  Até uma vampira precisa saber quando é hora de se retirar. A minha hora chegou. Estou cansada, fiz vítimas demais durante os séculos. Me diverti sim, é verdade. Sempre gostei do jogo. Mas há algum tempo deixou de ser divertido.
 
Os olhos de Aletse fitavam incrédulos os de Leanan. Eram parecidas fisicamente, embora o encanto de Leanan fosse imbatível.
 
– Não entendo…
 
– Vai entender. Você conhece Scarecrow, Aletse. Ele está comigo há tanto tempo que nem lembro mais. Sei que ele me ama. Sei que me é fiel nos sentimentos. Mas não posso dar a ele mais do que minha companhia. E nem tem sido grande companhia nos últimos tempos. Quero libertá-lo, e para isso preciso de sua ajuda.
 
Aletse continuava a fitar sua sósia com uma expressão perplexa. Se estava entendendo corretamente, Leanan queria a sua ajuda para morrer. Morrer de verdade, deixar de existir.
 
– Temos pouco tempo. Lúcifer deve estar a caminho, já percebeu que estou sem Scare. E Scarecrow logo virá também, ele sabe que há algo errado, que planejo alguma coisa. Eu sou uma vampira, Aletse, você sabe como me matar. Não sou a Leanan Sidhe do povo das fadas, apenas sua protegida. Não há nada de especial que você deva fazer, não há nenhum segredo, nenhum ritual que deva seguir além do que já foi exaustivamente divulgado no cinema, na literatura… Crave-me uma estaca no peito. O meu é oco, não atingirá o coração, mas rasgará o espaço em que deveria existir um. Depois corte-me a cabeça.
 
– Não trouxe minha espada, Leanan. Não saio por aí carregando armas medievais…
 
– Eu trouxe. É a espada que pertenceu a Vegaard. Nada mais justo que eu parta pela lâmina da espada daquele que me criou.
 
– Mas Scarecrow…
 
– Ele vai sofrer. Mas vai passar. Ele precisa se libertar de mim, precisa seguir seu próprio caminho. Não sei qual será, se voltará à sua forma Angélica, se servirá no Inferno ou se travará suas batalhas aqui mesmo, mas estará livre para escolher quem quiser como companhia, não terá mais obrigações para comigo.
 
– Ele jamais a perdoará.
 
– É um risco que tenho que correr.
 
A madrugada encheu-se de uma névoa espessa e fria. Lúcifer anunciava sua presença. Viera buscar a alma que tanto esperara, durante tanto tempo, e que agora se entregava a ele voluntariamente.
 
– Arrumei a casa para recebê-la, cara Fada. Há séculos aguardo por isso.
 
Aletse tremeu ao ouvir a voz do Senhor das Trevas, o Príncipe da Luz. Olhou para Leanan, esperando demovê-la daquela idéia absurda.
 
– Faça!
 
Aletse tremeu, sentia as mãos geladas, mas não de frio.
 
– Faça!
 
A vampira ruiva ordenava, com voz firme. Seria pior se o próprio Lúcifer a levasse. O sofrimento seria melhor se alguém o fizesse. E por motivos óbvios, Aletse era a mais recomendada para tanto.
 
– Faça!
 
A escritora estava paralizada. Leanan percebeu que ela não faria, a não ser que fosse levada àquilo. Então saltou sobre seu pescoço, arrancando-lhe parte da carne. A outra gritou, de dor e medo. E de raiva também. Num golpe único, cravou a espada no peito de Leanan. A vampira desequilibrou-se, caindo ao chão.
 
– Perdoe-me Scarecrow…
 
Cansado daquela cena enfadonha, o Príncipe da Luz tomou a dianteira. Também não permitiria que Leanan salvasse sua alma, separando a cabeça do corpo. Queria-a inteira no Inferno. Queria torturá-la, fazê-la sofrer pelas almas que ela roubara de seus domínios.
 
Envolveu-a em um manto de fumaça negra e a carregou para as profundezas.
 
– Leanan!
 
Scarecrow pressentiu que algo estava acontecendo, mas já era tarde. Viu Aletse no chão, a garganta dilacerada. Era a imagem de Leanan. Teve impulsos de protegê-la, como teria feito com a fada, mas não o fez. Leanan havia decidido sozinha, não lhe perguntara, não pedira sua opinião, não levara em conta seus sentimentos, apenas o abandonara. Aletse morreria também.

ANAN CARA

•julho 20, 2006 • Deixe um comentário
no goals.
no will.
no interests.
no love.
no life.
no rime.
no reason.
i’m dead already.

O BANQUETE (Scarecrow)

•abril 1, 2006 • 3 Comentários

Contam certas histórias que, na Inglaterra do século 18, o catolicismo sofreu um duro golpe. Novos ventos sopravam pela Europa: a Rússia dos Czares, pelas mãos de Catarina, a Grande, permite a liberdade religiosa; nos Estados Unidos, os testes religiosos são abolidos como requisito para altos cargos governamentais.
 
Esse contexto gerou solo fértil para George Whitefield, um pregador protestante que, aproveitando-se do conturbado momento londrino, foi rapidamente conquistando simpatizantes e poder. Conhecido por discursos e atitudes implacáveis contra os inimigos de sua fé, tocava com mão de ferro sua congregação, que já contava com membros importantes do parlamento, que obedeciam cegamente suas ordens.
 
Londres estava em convulsão, a criminalidade assolava as ruas, o aparelho social mostrava-se ineficiente. A cada manhã, mortos e mais mortos davam entrada no necrotério, seres que perdiam as vida das formas mais bizarras.
 
Whitefield era um homem versado nas artes do oculto e, tendo conhecimento da agitação no underground londrino, sabia que a cidade estava infestada de necromantes, bruxos e que até mesmo alguns vampiros colecionavam corpos todas as madrugadas. Mas nada lhe causava tanto ódio quanto a engenhosa movimentação dos rosacruzes, que nas sombras arrebanhavam aliados e já ameaçavam penetrar nas esferas do poder político.
 
Uma brigada cristã foi então organizada por ele e, nas noites boêmias da capital, uma nova onda de assassinatos saltava aos olhos. Com o apoio velado de boa parte do parlamento e o silêncio cúmplice dos católicos, Whitefield criou sua própria inquisição no submundo de Londres, sem tribunais ou direito à defesa. Todos os que supostamente estavam envolvidos com atividades ocultas eram acusados de serem rosacruzes e sumariamente exterminados.
 
Passado quase um ano, o genocídio gerava resultados. Quase todos os indesejáveis haviam sido banidos, os que restaram estavam escondidos, e a fúria louca de Whitefield crescia.
 
Foi numa dessas noites de apreensão que Leanan resolveu sair pelas ruas. Alguns de seus conhecidos vampiros haviam caído nas mãos da brigada cristã e foram executados com requintes de crueldade. Atenta ela caminhava. Tudo era incerto nas madrugadas regadas a vinho e cerveja caseira com o círculo de pintores e poetas. Uma noite ela conheceu Molly, uma jovem prostituta de brilho singular, na flor de seus 18 anos, de uma sensualidade ao mesmo tempo infantil e selvagem, que fazia Leanan lembrar-se de sua distante juventude cronológica nas fogueiras de Beltane. Molly vinha risonha pela rua, estendendo ainda mais o sorriso ao ver Leanan. Sempre admirou a personalidade altiva daquela mulher, de uma beleza rara e implacável, talvez a única mulher em Londres que Molly invejava, sonhava em ser como ela.
 
— Boa noite senhorita Leanan.
 
Cerca de duas horas depois estavam a beber e conversar. Leanan notou que Molly carregava muito dinheiro. Curiosidade que logo foi satisfeita. Embriagada, Molly começava a lhe contar sobre suas peripécias sexuais, sobre como estava melhorando, deixando de atender a bêbados falidos para servir a membros da côrte, e de altos escalões do governo. Contara sobre as festas regadas a muito sexo e luxo, e o principal: revelara que a partir daquele dia se dedicaria a um único freguês: George Whitefield! Leanan teve que esforçar-se para não revelar o prazer que essa informação lhe trazia. Enfim uma fraqueza na armadura do colérico genocida religioso!
 
Passaram-se os dias, e os encontros entre Leanan e Molly ficaram mais freqüentes, detalhes picantes sobre as taras de Whitefield iam sendo revelados: sadismo, tortura, humilhação, algo um tanto exótico para um conservador líder espiritual.
 
Foi numa noite tempestuosa que uma recepção a portas fechadas foi organizada numa mansão em  Covent Garden. O anfitrião: George Whitefield. Naquela ocasião, Molly trajou-se com muito esmero, estava absurdamente linda! Ao entrar no salão, divertiu-se com os olhares de franco desejo que vinham dos homens, e da inveja cortante de outras prostitutas que estava por ali. Na festa, além do próprio Whitefield, que a tomara pelas mãos, outros distintos representantes da elite londrina se encontravam, todos à vontade e entregues aos prazeres.
 
A noite avançou, o vinho era abundante, e por fim o descontrole chegou. Aqueles senhores estavam agora a sodomizar suas escolhidas aos olhos de quem quisesse ver. Nas mesas, sofás e corredores, a luxúria se apresentava sem retoques. Molly, sentindo-se tocada pelas mãos de Whitefield, entregou-se rapidamente. O prazer lhe inundava, o vinho a entorpecia, em dado momento sentiu-se girando, como se chamada a uma dança desconhecida. Deixando-se levar, experimentava aquela doce sensação, tal como uma criança a ser embalada. Sentia-se tão bem que ignorava os gritos que começavam a soar em seu redor.
 
Os gritos pareciam vir de todos os lados, aterrorizados, urgentes, ruídos de coisas quebradas, brados de clemência, fúria… Em dado momento aquela balbúrdia auditiva chamou sua atenção. Molly olhou para a sala, só a tempo de ver rapidamente uma linda mulher ruiva a exibir caninos assustadores que vertiam sangue quente. E segurando suas mãos naquela dança fúnebre…um espantalho! Molly foi tomada de um terror que jamais havia experimentado antes. Queria livrar-se daquela dança, aquela criatura lhe sorria horrorosamente. Molly gritou, como nunca pensou que pudesse gritar! Sentiu seu corpo cair, viu-se então novamente no interior da mansão, a cena que presenciava fugia a qualquer descrição: corpos dilacerados, sangue, pedaços de carne e membros decepados por todos os lados, um frenesi de cadáveres como ela nunca imaginou.
 
Próximo à porta, um corpo suspenso e destruído. Próximo a ele, numa elegante bandeja, a cabeça de George Whitefield.
 
Molly não sabia o que fazer, o que pensar, nem notara que já amanhecia o dia e que a policia londrina já arrombava a porta da mansão, atraída pelos chamados anônimos que davam conta de uma carnificina jamais vista na terra da rainha!

 

PRAZER SANGÜÍNEO

•março 16, 2006 • 4 Comentários

– “Marduk rulessssssssssssss!” – gritavam a plenos pulmões cabeludos vestidos de preto e com camisetas estampadas com o logo da banda, na saída do show. 
 
A apresentação da banda sueca havia sido “matadora”. Como ela. Alessia era agora uma assassina. Havia deixado o rol dos ‘metaleiros’ que muito falam e nada fazem, para integrar o dos que realmente vivem a ideologia do estilo. Vitor a estava incomodando e foi eliminado.  Não é o que prega o Satanismo: a eliminação dos inimigos? Só que Vitor não era inimigo, era seu namorado, e a amava. E ela também.
 
Passou o show inteiro quieta. Ítalo era quem melhor a conhecia, e percebeu de longe que a animação daquela tarde havia-se dissipado, e que era melhor manter distância de Alessia. Ela odiava que lhe perguntassem se estava bem, precisando de ajuda, ou coisas do gênero. Quando sentisse necessidade o procuraria. E ele estaria lá, junto aos demais amigos, esperando que isso acontecesse.
 
Duas bandas abriram a noite, as duas de amigos de Alessia, mas ela não se animou. Não ficou no meio da galera, não bateu cabeça. Ao invés disso, ficou em seu canto escuro e solitário, bebendo uma lata de cerveja após a outra. O que faria com Vitor? Teria que dar um fim no corpo, e isso até que não seria tão difícil. O problema é que, mais dia, menos dia, as pessoas notariam a ausência dele. Perceberiam que não havia ido trabalhar, que não aparecia nos shows, que nunca mais havia ido ao Largo. Perguntariam a ela, a pessoa de quem ele era mais próximo. O que diria? E quando a ausência se tornasse prolongada demais, passando de uma bebedeira e dias de ressaca, Vitor seria dado como desaparecido, e a polícia então se envolveria no caso. Novamente viriam até ela e, convenhamos, seu perfil não era o que a polícia consideraria dos mais confiáveis.
 
– O Marduk já vai entrar no palco, Less – avisou Guilherme, oferecendo à moça outra cerveja – Não vi o Vitor por aqui, ele não vem?
 
Alessia tremeu por dentro. Vitor estava morto há menos de 5 horas e já haviam começado as dores de cabeça. Pegou a lata que Guilherme oferecia, levantou-se em silêncio de onde estava e aproximou-se do palco. A cabeleira preta e levemente ondulada voava para frente e para trás, violentamente. Entregando-se ao som, esperava conseguir afastar, por momentos que fossem, Vitor de sua mente.
 
Still fucking deeeeeeeaaaaaaaaaaaddddddddddddd! – vociferou Legion, vocalista da banda, anunciando o que tocariam a seguir. A galera, alucinada, gritava em uníssono:
 
Marduk! Marduk! – fazendo com os dedos indicador e mínimo o sinal do demônio.
 
Alessia não gritou. Parecia ter saído de um transe para entrar em outro. Ficou no meio da multidão, parada. Quase não respirava. “É, still fucking dead”, pensou. E nada que viesse a fazer mudaria isso. Vitor estava morto, e continuaria assim pela eternidade. Lamentaria mais tarde, se ainda acreditasse que valia a pena. Precisava pensar, tinha que encontrar uma maneira de afastar dela toda suspeita.
 
Um headbanger passou por ela e gritou, em seu ouvido:
 
Hail Sataaaaaaaaaaaaaaaaannnnnnnnnnn!!!!!!
 
O primeiro pensamento foi fazer com que ele conhecesse a força de seu coturno com ponteira de metal, mas controlou-se. Havia tido uma idéia durante o show, e aquele poser viria bem a calhar. Estava na hora certa, no lugar certo. Ou errado, depende de que lado da faca você está.
 
– Less, vem com a gente pra casa dos caras? Vamos ficar bebendo até meio-dia, aí vamos fazer churrasco – convidou Mephistos.
 
– Obrigada, mas não. Vou pra casa, pode ser que o Vitor ligue. Divirtam-se, bebam por mim!
 
Despediu-se de Mephistos, Ítalo e dos demais, e seguiu a pé para casa. No meio do caminho, conforme esperado, encontrou o poser que havia berrado em seu ouvido na saída do show.
 
– Ô, vampira, não tá a fim de me levar pro seu sarcófago?
 
Alessia queria vomitar. Poser era elogio para uma figura daquelas. Respirou fundo, buscou coragem para encarar ‘aquilo’ sem demonstrar seu asco, e sorriu. Jogou-lhe um olhar sexy e convidativo, chamou-o com o dedo indicador. “Nenhum homem resiste a um gesto desses, acompanhado de um olhar magnético e um sorriso sedutor”, dissera-lhe uma vez seu namorado. Era hora de testar.
 
– Obrigado Sataaaaaannnnn!!!!!!!!! – berrou o headbanger poser – Nunca pensei que um dia me daria atenção, Deusa Alessia – disse aproximando-se dela e beijando a mão com a qual ela o chamava.
 
Caminharam para a casa dela em quase silêncio, quebrado apenas pela tentativa dele de puxar assunto. Alessia parecia não ouvir.
 
Entraram no prédio, subiram ao 11° andar. 
 
– Me espere aqui – ordenou ela, enquanto entrava no quarto. Jogou cobertor e uma dezena de almofadas sobre o corpo de Vitor, acendeu duas varetas de incenso para afastar o odor da morte. Quando retornou à sala, sua companhia observava a coleção de lâminas exposta na parede, e esticava o braço para pegar um dos exemplares.
 
– Nem pense em fazer isso – surpreendeu-o Alessia -, ninguém a não ser eu, toca nessas lâminas. Se o fizer, terei que matá-lo – disse sorrindo, puxando-o pela corrente presa à cintura.
 
Luigi era seu nome, mas todos o chamavam de Conan, devido ao seu porte físico.
 
– Desculpe, não foi minha intenção ofender você – apressou-se em dizer -, só queria olhar mais de perto.
 
– Para olhar de perto, não precisa tocar. Bom, geralmente não… – maliciou, umedecendo os lábios e estimulando o desejo que sabia que Conan nutria por ela.
 
Mostrou a ele a porta de seu quarto, pediu que a aguardasse e ausentou-se por mais alguns minutos. Voltou vestindo catsuit de couro, botas 7/8 salto 15 e plataforma, luvas também 7/8 de látex. Tirou a corrente que ele trazia em torno da cintura, enquanto olhava embasbacado para ela.
 
Afastou-se por instantes, acendeu as velas e ligou Behemoth em volume máximo. O coração de Conan começou a bater acelerado. Ah, sim, ela sabia mesmo como fazer aquilo. Não havia se enganado todas as vezes que fantasiara.
 
Aproximando-se a passos firmes, empurrou-o para a cama. De dentro de uma das gavetas do criado-mudo, tirou uma máscara de couro com zíper na boca, que usava nas brincadeiras com Vitor. Subiu na cama, ficando de joelhos atrás dele, e deslizou a mão pelo seu peito, subindo-a em direção ao rosto. Beijou seu pescoço e levemente mordeu o lóbulo da sua orelha direita.
 
Conan estava sem ação, mas respirando ofegantemente.
 
Alessia então usou a corrente que havia tirado dele para acorrentá-lo, prendendo seus braços ao longo do corpo. Onde as duas partes da corrente se encontram, às costas, prendeu um pequeno cadeado. As duas pontas que pendiam envolveram-lhe os pulsos, que ela prendeu com uma segunda tranca. Pegou a máscara de couro e a vestiu em Conan, fechando o zíper que ocupava o lugar da boca. Não queria ouvir a sua voz.
 
Longos minutos transcorreram sem que Conan ouvisse qualquer som, a não ser o da banda que gritava preceitos satânicos. Alessia apenas observava. Ele não sabia o que aconteceria a seguir, estava acorrentado, encapuzado e não podia ver, nem falar. Ela deixou que um sorriso surgisse nos lábios. Adorava aquele tipo de situação.
 
Claro, Conan poderia se levantar dali se quisesse, suas pernas estavam soltas. Mas para onde iria? Perdeu o senso de direção, e não sabia que perigos escondiam aquele quarto. Então sentiu algo gelado tocar sua garganta e descer pelo peito. Sentia que era algo afiado, pois arranhava a pele. “Uma lâmina”, pensou. Pelo que conseguia sentir, sabia que era estreita, bastante firme e a julgar pela distância que a moça parecia estar dele, longa.
 
Uma espada era o que Alessia apontava em sua direção. Encostou a ponta um pouco mais incisivamente em seu pescoço, furando-o levemente, fazendo surgir sangue. Desceu a lâmina e a colocou por dentro da camiseta dele, fazendo com que sua pele entrasse em contato com o metal gelado. Com o fio voltado para cima, e num único movimento rápido, rasgou a camiseta em duas metades, a lâmina retornando ao seu pescoço, atingindo exatamente o mesmo ponto de antes, de onde Alessia havia tirado uma gota de seu sangue.
 
Conan respirava cada vez mais rápido e com dificuldade. Suor escorreu por debaixo da máscara e misturou-se à gota vermelha saída de seu pescoço. Estava com medo, mais do que jamais estivera em toda sua vida. Mas também estava excitado. Aquela garota era selvagem. Nunca conhecera ninguém como ela.
 
Alessia sentou-se em seu colo, as pernas envolvendo a cintura dele e os braços em volta de seu pescoço, a espada ainda em punho. Abriu o zíper da máscara, permitindo que Conan tentasse respirar, mas sem dar muita chance para tanto. Deu-lhe um beijo violento, mordendo seus lábios e fazendo-o sangrar, sorvendo o sangue enquanto o beijava. Lembrou-se de como tudo começara, e do prazer que sentiu ao beber de Vitor. E dos motivos que levaram-na a convidar Conan para sua cama.
 
Fechou o zíper novamente, posicionou-se na cabeceira da cama e o puxou para cima, mantendo-o sentado, encostado na cabeceira. Cortou o que restava da camiseta dele, expondo seu peito ofegante. Beijou-o, alternando entre massagens com a língua e com os lábios, passando os dentes em sua pele. Tirou as luvas e tocou seu tórax com as mãos nuas. As unhas, longas, pontudas e afiadas, acariciavam-no como dez finas lâminas que trazia nas pontas dos dedos.
 
O medo é extremamente excitante. Conan sempre imaginara isso, mas nunca havia experimentado a sensação de perigo vindo de uma linda mulher, e Alessia não era só linda: era realmente perigosa. Tentou relaxar, mas era humanamente impossível. E a bem da verdade, não queria. Sentia-se estranhamente bem em meio àquilo tudo. Sentia excitação e o desejo aumentava a cada movimento dela.
 
Ouviu o som de zíper descendo. O zíper da bota de Alessia. De dentro, ela tirou sua adaga. Pequena, mas bastante afiada. Desenhou em seu peito, bem no centro, um pentagrama de invocação. Os traços foram feitos com cortes fundos e lentos, prolongando a dor e a ardência da lâmina rasgando a carne. Alessia abriu novamente a máscara e aproximou a lâmina ensangüentada da boca de Conan, enquanto saciava sua sede na estrela recém desenhada. Ele não sabia se gemia de dor ou de prazer. Decidiu que faria ambos, pois a moça não notaria a diferença. Gemidos abafados.
 
Novamente som de zíper descendo. Desta vez era o do catsuit, que ia do pescoço até o umbigo. Alessia o abriu por inteiro, permitindo à sua pele respirar um pouco. Sentou-se nas pernas de Conan, de frente para ele, acariciando-o.
 
– Quer que eu tire a máscara, escravo?
 
Conan acenou assertivamente com a cabeça. Alessia subiu um pouco a máscara, até a altura do nariz, e ele buscou o ar avidamente, a respiração mais e mais ofegante. Ela o beijou. Mordeu. Arranhou seu rosto. Colocou suas mãos por dentro da máscara, tirando-a por completo. Conan tentou acostumar seus olhos à luz pálida das velas.
 
Alessia continuava na mesma posição, de frente para ele. Pela abertura do catsuit, ele via revelada uma parte da pele dela. Alessia o olhou dentro dos olhos, e sem jamais desviar o olhar, aproximou a adaga de seu peito alvo, fazendo um corte fundo. Um filete generoso de sangue saiu dele. Limpou a lâmina com a língua e guardou novamente a adaga dentro da bota.
 
Conan estava boquiaberto. Não sabia nem o que pensar, o que dirá reagir.  Com os dedos médio e anelar direitos, Alessia recolheu o filete que escorria da sua pele e os levou à boca, manchando seus lábios com o próprio sangue, como se fosse batom. Aproximou sua boca da de Conan, sem o beijar, então passou a língua nos lábios, limpando-os.
 
– Você devia experimentar,  Conan. Não há sabor igual!
 
Tentando articular as palavras, ele murmurou algo parecido com “eu quero”.
 
– Mas tem que ser da forma como eu comecei… – sussurrou Alessia em seu ouvido – …com o seu próprio sangue…
 
Ele balançou a cabeça, concordando. Nem sabia mais com o que concordava, mas sabia que não queria discordar. Faria o que ela mandasse. O que quisesse. Qualquer coisa.
 
– Tudo o que você quiser, Alessia.
 
Ela sorriu.
 
Indo até os pés da cama, retirou todas as almofadas e o cobertor, revelando a Conan o corpo de Vitor.
 
– Mas é…é…
 
metaleiro estava gelado. Por alguns momentos quis fugir dali, para bem longe daquela mulher magnificamente insana e daquele defunto. Mas a vontade passou quando imaginou que seu rival ao coração e à cama de Alessia já estava fora da jogada. “E se eu ajudá-la a se livrar do corpo, certamente a terei para sempre, ou enquanto eu quiser”, fantasiou.
 
– Você assistiu ao Cova Rasa, não assistiu?
 
Ele meneou a cabeça.
 
Alessia saiu do quarto, e voltou com o único machado de sua coleção, presente de uma amiga, professora de História Medieval.
 
– Então faça!
 
– Sim, faço. Mas quero continuar a brincadeira que você começou. Vamos até o fim, Alessia!
 
Ela respirou fundo. Concordou. Sorriu.
 
– É claro que sim, meu demônio querido – disse, acariciando seu rosto -, mas em um lugar especial. Vamos nos livrar do corpo, antes. Primeiro as obrigações, depois o prazer.
 
Conan cortou o corpo de Vitor em várias partes, segurando-se para não vomitar. Em vão. Além do cheiro forte, pesava o fato de nunca ter matado ninguém, muito menos decepado. Mas Alessia valia o sacrifício, e o que o esperava também. Não sabia onde ela o levaria, mas se as preliminares haviam sido daquele jeito, sabia que podia esperar o melhor do ato principal.
 
Com a ajuda de Alessia, colocou os pedaços de Vitor em vários sacos de lixo, com os quais desceu até a garagem. Entraram no carro dela, e então dirigiram até a Pedreira, onde os descarregaram.
 
– Agora quero meu prêmio.
 
Alessia sorriu um sorriso malicioso e repleto de mistério e terceiras intenções, e dirigiu até as Ruínas de São Francisco. Àquela hora já não teria mais ninguém por perto.
 
– Venha – ordenou, pegando no porta-malas o machado medieval com que haviam destroçado Vitor.
 
Pularam a cerca e entraram nas ruínas, Alessia indicando o caminho.
 
– Olhe o que eu trouxe pra você…
 
Era a máscara, que Conan mesmo vestiu, alegremente. Sim, sim…continuariam de onde haviam parado.
 
– Quer me amarrar de novo?
 
Ela soltou uma gargalhada.
 
– Não é necessário. Mas você tem que prometer que não vai emitir nenhum som… – sussurrou.
 
Ele balançou a cabeça em excitada afirmação, e fechou o zíper da máscara.
 
Alessia tirou a adaga de dentro da bota. Conan foi morto com a garganta aberta de um extremo a outro, num sorriso escancarado, quase como Vitor. Alessia levou o líquido vermelho aos lábios de Conan, cumprindo a promessa de iniciá-lo naquele prazer sublime; ajoelhou-se e experimentou mais uma vez o sangue de sua vítima. Tudo valia a pena por aqueles rápidos momentos de prazer sangüíneo. Então pegou o machado, e separou o corpo de Conan em seis partes, deixando-o ali mesmo. Quem diria que existiam serial killers daquele calibre em Curitiba…ou quem sabe tivesse sido briga de gangues, vingança. A polícia ligaria os dois crimes quando os encontrasse, certamente então teceriam alguma explicação.
 
Agora tudo o que tinha a fazer era ensaiar a tristeza e o terror de saber que seu namorado havia sido encontrado esquartejado, e que haviam feito outra vítima depois dele. Alessia dirgiu de volta para casa, a alma lavada em sangue.

O RETORNO (com Scarecrow)

•março 12, 2006 • 1 Comentário

O céu já se vestia de vermelho e púrpura, as luzes começavam a se acender na cidade. Leanan Sidhe fechou as cortinas do quarto num movimento único e virou-se para olhar Scarecrow. Ele, recostado na cama, parecia concentrado em algo que ela não conseguia definir. Após alguns instantes seus olhos encontram os da vampira, percebendo então estar sendo  observado. 

 

– Leanan? Precisamos voltar.

 

Mesmo sem emitir qualquer som, eram claras as palavras dele, que lhe chegavam aos olhos, ouvidos e mente. Leanan continuava a olhar para ele, sem reação. Estivera apática por meses, e Scarecrow respeitara aquele momento. Enquanto isso, o espantalho envolvera-se em atividades só suas, sem jamais abandoná-la, no entanto. Algumas vezes até mesmo a alimentara, providenciando o que ela precisava para sobreviver. Fora seu cavaleiro andante, mais do que nunca; seu protetor.

 

Mas o tempo estava passando, e embora nenhum dos dois pudesse ser afetado por ele, sabia que algo precisava ser feito.             

 

Scarecrow engatinhou até os pés da cama, aproximando-se de Leanan. Puxou-a para si, abraçando ternamente sua cintura, encostando seu rosto no corpo dela. A vampira aninhou-se entre os braços dele, sentindo que muito tinha a dizer. Mas sua voz presa negava-se a emergir, dando lugar a uma lágrima que descia solitária.

 

Ambos estavam em silêncio. Meses haviam passado e as aventuras, o gosto pela caça e os desafios haviam cessado. Agora a necessidade do ato predatório parecia gritar no interior de ambos, lutando contra um entorpecimento que se instalara e que precisava ser exorcizado.

 

Leanan viajou por suas lembranças, desde Vegaard, passando por vários países e o Inferno, o amaldiçoado local onde encontrou Scarecrow pela primeira vez, e de onde saíram juntos para nunca mais se separarem. Num furtivo olhar, ela pôde perceber que seu cavaleiro de palha também perdia-se em devaneios.

 

A solidão a dois cobrava seu preço, a fera interna gritava, Leanan precisava sair de seu casulo e ganhar a rua; os olhos de Scarecrow eram claros, onde ela fosse ele estaria: na vida, na morte, no sempre!

 

O calor que vinha do corpo de Scarecrow lhe pareceu o alento final. Muito havia acontecido, muito mais haveria de acontecer, era preciso viver esse orgulho. Os inimigos estavam sempre por perto, para divertirem-se a qualquer custo, por mais barato que fosse.

 

Leanan levantou-se, procurou banhar-se com esmero e em pouco tempo era novamente aquela irresistível assassina que fascinou o Paraíso e o Hades.

 

O vento da noite soprou em seu rosto. Confiante, observou a cidade ao longe. Era hora de caçar, hora de voltar a plantar o medo no coração dos homens.

 

Numa última olhada para trás, viu seu protetor a postos. Ele lhe sorria, estava tudo pronto. Aquela seria a primeira de muitas noites de sangue!

 

ABRA A BOCA E FECHE OS OLHOS

•janeiro 1, 2006 • 4 Comentários
Era noite fechada quando eles se encontraram. Havia poucas pessoas nas ruas. Em pleno inverno rigoroso, poucos se arriscavam a sair de casa. Era diferente no verão: ruas sempre cheias, bares lotados.
 
Eles haviam marcado encontro em um bar recém inaugurado, "Grey Clouds Pub", dizia a placa. Mas as pessoas já o chamavam de "Cinza".
 
No sábado, sempre havia algumas bandas underground tocando no Cinza, estilos variados. Naquele sábado, era dia de trash metal. Duas bandas iam tocar, uma delas de conhecidos seus. Entrou no bar e dirigiu-se ao balcão. Cumprimentou o barman, pediu uma bebida e foi até o salão maior, nos fundos, onde o barulho já havia começado.
 
– Tem alguém procurando por você, Silene – avisou um dos freqüentadores do local – um cara meio estranho… Se precisar de ajuda, estamos aqui.
 
Ela agradeceu, mas não seria necessário. Silene sabia se cuidar, nunca havia precisado de guarda-costas antes, não seria aquela a primeira vez.
 
Silene conhecia todo mundo, era figurinha fácil no meio underground. Onde chegava, todos a cercavam. Por isso, aliás, não foi difícil reconhecer "o estranho" que perguntara por ela no meio daquela multidão. Ele tinha os cabelos na altura dos ombros, meio aloirados. Os olhos eram pretos e grandes como duas jabuticabas, profundos.
 
– Sérgio?
 
– Eu mesmo, gata. Estava à sua procura. Você me disse na internet que estaria de preto, mas isso não ajuda muito aqui. Teria sido mais fácil se você tivesse me enviado sua foto.
 
Ela riu.
 
Ele então parou de falar e olhou para ela. Bonita. Olhos azuis, cabelos castanhos e lisos, com um leve toque de tinta azul celeste nas pontas. Assistiram ao show juntos, beberam, ela o apresentou a alguns amigos. Depois decidiram que a noite ainda prometia muitos prazeres e saíram sem rumo definido. No meio do caminho entre o bar e lugar nenhum, decidiram ir à casa dele.
 
O apartamento ficava num prédio antigo. Entraram no elevador e ele apertou o 13° andar. Olhou de canto de olho para a Silene, como se esperasse alguma reação. Ela, no entanto, parecia nem ter notado, ou simplesmente não dava atenção a crendices ou coisas do tipo. Sérgio ficou um pouco decepcionado. Morar no 13° andar sempre impressionara as garotas com quem saía. Era como se houvesse uma aura de mistério no ar. Todas elas, ao menos comentavam: “Hmmmmm, 13° andar, hein?”
 
Silene não fez nada. Não comentou nada, não perguntou nada, nem notou nada.
 
– Venha. O apartamento fica por aqui – disse ele, mostrando o corredor esquerdo.
 
13° andar, corredor esquerdo…e nenhuma reação de Silene. Será que a garota era tapada? Ele não costumava errar daquele jeito, quando escolhia suas garotas na internet. Nos papos pelo MSN ela parecia tão…receptiva, tão…influenciável…
 
Tirou a chave do bolso. Os olhos vermelhos de uma caveira preta reluziam em seu chaveiro. ("Ela vai dizer alguma coisa…") Sérgio estava cada segundo mais frustrado. Agora sim, ela iria comentar…apartamento de paredes negras, decoração em veludo, seda e cetim vermelho e roxo. Não havia quem ficasse indiferente a isso. Uma caveira era o suporte da antena de sua TV. Candelabros de dragão eram os abajures que ladeavam o sofá de ossos.
 
Nada. Nem mesmo uma alteração na expressão. Não arregalou os olhos, não sorriu, não olhou admirada para nada…
 
– Quer subir? – perguntou ele já em desespero. Seu quarto era a última cartada. Ela aceitou. Subiu as escadas em caracol, carpete vermelho. Na porta do quarto, um enorme pentagrama invertido. A cama era uma atração à parte: em forma de caixão, com alças e tudo. Caixão de casal, obviamente, que ele não era bobo. Na janela pendiam tules e retalhos de tecidos em preto, roxo e vermelho. Tinha espelhos no teto e na parede maior.
 
– O que achou? – ele perguntou, rendendo-se à curiosidade.
 
Ela acenou com a cabeça, meio que indiferente, como que a dizer: "é, legal…" Sérgio já não suportava aquilo. Garota estúpida! Ela ia ver só o que era bom! Ajudou-a com a bolsa e atirou-a na cama, jogando-se sobre ela. Começou com beijos violentos e apressados, foi rasgando-lhe a roupa com voracidade. Ela não parecia se importar.
 
– Você tem algum problema? – disparou, já totalmente irritado.
 
Silene abriu a o macacão de vinil que usava, enfiou a mão por dentro e retirou, de uma faixa presa ao corpo, uma faca de lâmina ondulada e espessa. Sérgio sorriu. Finalmente ela entrara no clima da brincadeira. Ela passou a lâmina entre os lábios e desceu-a, deslizando-a por todo seu corpo. Sérgio estava visivelmente gostando daquilo.
 
– Faz mais, mostra mais… – dizia ele, animado.
 
Ela sorriu. Levantou da cama, despiu o macacão, mas manteve as botas, de couro vermelho envernizado.
 
– Vem aqui, vem… – provocou. Sérgio sabia que era provocação, mas não se conteve assim mesmo. Saltou em sua direção, agarrando-a. Lambeu a orelha, acariciou os ombros, mordeu o pescoço.
 
Ela o abraçava mais forte, cada vez que ele investia com os dentes em sua pele. Ele sorriu. Sorriso largo, deixando entrever os caninos afiados que haviam-lhe custado o salário de um mês no dentista.
 
Aquilo não podia ser verdade! Até dentes afiados?? Assim já era demais! Uma coisa era ser brega. Outra bem diferente era ser imbecil e acreditar que todas as mulheres também o eram.
 
– Tenho uma surpresinha pra você…  – disse a ele, a voz sussurrada, próxima ao ouvido. – …mas terá que deitar direitinho e fazer tudo o que eu mandar…
 
Ele não respondeu. Acenou com a cabeça apenas e deitou-se, excitado com o que certamente viria a seguir.
 
– Feche os olhos – ordenou ela.
 
Ele fechou.
 
Silene tirou de dentro da bolsa dois pares de algemas, que prendeu nos pulsos de Sérgio e nas alças de seu caixão King Size.
 
– Agora seja um bom menino e abra a boquinha…
 
"Hmmmmmm" – pensou ele – "será que vai cortar a pele e me dar o sangue?"
 
Silene olhou para a cena, fotografando-a em sua memória. O que fazia um homem daquele tamanho passar por algo ridículo como aquilo? Olhou-se nos espelhos e deu o braço a torcer. Era bonita, se fosse homem também faria o que ela mandasse.
 
Sérgio já começava a salivar, e a saliva já escorria pelo canto da boca. Silene sentou-se sobre ele. As botas vermelhas segurando firmemente seu rosto entre as pernas.
 
Ele gemeu…
 
– Não se mexa agora, gatinho, ou vai doer…
 
Ele fez que sim, e manteve-se de olhos fechados e boca aberta, exatamente como ela havia pedido.
 
Silene pegou novamente sua faca ondulada, encostou-a no rosto de Sérgio e passou sobre ele a lâmina afiada. Ele gemia de prazer. Enfiou a lâmina em sua boca, movimentos suaves, fazendo-o sentir o gosto do metal gelado. Então com a ponta cortou sua gengiva, em cada um dos caninos afiados, e arrancou-lhe os dentes.
 
Sérgio gritava.
 
Acostumados com as orgias no apartamento do moço, nenhum dos vizinhos foi acudir. Silene saiu do prédio, voltou para casa e ligou sua internet. No dia seguinte, amigos de Sérgio o encontram nu e algemado em sua cama, deitado em um lençol empapado de sangue. Os caninos estavam sobre o travesseiro, num saquinho de veludo negro.